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Talian

Início Módulo 3 - Comunidade Linguística Talian

1 - Identificação da Comunidade Linguística

1.2 Projeto

Língua Talian

1.3 A comunidade linguística pode ser classificada como:

Línguas de Imigração

1.4 Língua do Inventário

Talian

Imigração

Identifique o país de origem

Itália

Observação

Vêneto, Trentino-Alto Adige, Friuli-Venezia Giulia e Piemonte, Emilia-Romagna, Toscana e Ligúria

3 - Caracterização da comunidade linguística

3.1 Histórico

O século XIX assistiu a um processo inédito de deslocamento de pessoas. Milhares de cidadãos trocando de pátria com o forte desejo de possuir seu pedaço de terra em um novo e pouco desbravado país. Como em todos os fatos e processos históricos, é preciso levantar algumas questões e analisar essa movimentação humana que acontece no fim do século XIX e nas primeiras décadas do século XX para, dessa forma, compreender o impacto na esfera política, econômica e cultural desse episódio até os dias atuais. Parte-se, então, da análise e contextualização do país donde são oriundos os imigrantes em questão, a Itália. Diferentes correntes historiográficas explicam o processo imigratório. Em linhas marxistas, as questões econômicas são como fundamento básico de motivação para as pessoas imigrarem, direcionando, assim, para um ponto em comum entre os que realizaram esse processo, o pauperismo. Entretanto, Gramsci que também se utiliza do materialismo dialético, encontra outro fator além da pobreza como fator imigratório, colocando como motivo a falta de capacidade da classe dirigente do país em questão em subsidiar trabalho para a sua população. Isso podendo atingir tanto pobres como abastados. Entre as divergências historiográficas aparece o crescimento demográfico da Itália como um dos responsáveis pela imigração de boa parte da população. Mais respaldadas são as opiniões que juntamente com a questão da terra, do aumento da população e da miséria, ainda apontam para interesses ideológicos e conveniências para as nações envolvidas, tendo a imigração como um resultado da expansão do capitalismo, resquícios de um feudalismo europeu e uma escravatura brasileira. Aqui, ainda vivia-se no período do Império, e estava à frente Dom Pedro II, o qual era firme em sua visão da necessidade de se aumentar a produção agrícola nacional com a imigração de colonos livres europeus. Essa era a base da política econômica brasileira inspirada na divisão internacional do trabalho. Porém, o imperador tinha forte oposição dos senhores de terras, os quais eram imensamente beneficiados com a falta de políticas para a distribuição de terras no país. Antes de 1850, seria impossível realizar qualquer processo imigratório, isso porque as terras eram doadas pelo Império como forma de premiação e concessões de títulos de nobreza. Tal realidade mudaria em 18 de setembro de 1850, com a criação da Lei de Terras que determinava que a partir de então, as terras só poderiam ser adquiridas através da compra. Mas, muito além da questão da produtividade, a imigração no Brasil deve sempre ser imediatamente ligada com a questão da escravidão. Essa, que era a base da mão-de-obra nacional, caminhava lentamente e sem políticas de soluções para um processo de abolição por meio de leis como a Eusébio de Queirós, que proibia o tráfico de escravos, as leis dos Sexagenários e a do Ventre Livre, que previam a abolição dos escravos maiores de sessenta anos e dos filhos ainda em gestação. Sem escravos, a questão da mão-de-obra só podia se resolver por meio da imigração. A existência de fundos para a colonização incentivou fazendeiros e empresários que passaram a estimular a imigração. Mas, mais que demonstrar o problema da mão-de-obra, a opção do governo brasileiro em optar pelo trabalho livre europeu é o resultado de uma visão eurocentrista, oriunda de séculos de dominação, onde a teoria de superioridade racial era muito forte e o projeto de branquear a nação brasileira era um projeto político. A imigração italiana não foi a única que ocorreu nos meados do século XIX e XX, porém ela teve algumas particularidades. Foi, em questão temporal, a mais extensa, e também uma das que mais arrecadou valores para os governos. Segundo Iotti (2001), contribuiu para o fortalecimento do sistema capitalista italiano. Entretanto, não se deve pensar a Itália do período da imigração como hoje. Há que se ter o cuidado de não cair numa análise anacrônica da Itália do processo imigratório. A Itália recém unificada originou-se de diversas regiões com características culturais e de identidades muito distintas umas das outras. Não por acaso encontram-se registros dos imigrantes italianos no Brasil, os quais não se identificam dessa maneira como referência de nacionalidade, mas se denominam de acordo com sua região, como cremoneses, mantuanos, vicentinos, bergamascos, entre outros, demonstrando a inexistência do sentimento de pertença a uma pátria recentemente criada. No Nordeste do Rio Grande do Sul, na Serra Gaúcha, foram criadas as Colônias Caxias, Conde d’Eu e Princesa Isabel, onde mais tarde se constituíram as cidades de Caxias do Sul, Garibaldi e Bento Gonçalves. É importante ressaltar que o Império tinha controle total do processo imigratório, era ele que cuidava da legislação e da manutenção dessas leis, com funcionários trabalhando para que essa experiência desse certo. Quando o imigrante chegava ao país era abrigado em barracões por alguns dias até que fosse encaminhado para a sua terra, que poderia variar de preço conforme o tamanho e a qualidade atribuída. A distribuição se dava em travessões, léguas ou linhas que formavam os lotes. As regras dependiam do diretor da colônia, que era funcionário do Império. Porém, todo auxílio recebido pelos imigrantes devia ser pago. Em poucos casos a dívida foi perdoada, mas na maioria, quando os imigrantes não conseguiam pagar suas pendências, perdiam tudo. A dívida dos imigrantes era formada pelo valor do lote, pelos auxílios alimentação, sementes e instrumentos agrícolas. O transporte da Itália até o Brasil, e dos portos até as colônias ficava por conta do governo imperial. Ao atual distrito Nova Milano, no município de Farroupilha, foram destinadas as primeiras famílias de imigrantes italianos, que eram milaneses, em 1875. Uma distribuição rápida teve que ser feita para poder atender ao crescimento do número de italianos que chegavam à antiga colônia. Segundo Frosi e Mioranza (2009, p.55), um esquema muito simples foi adotado: “à medida que chegavam, iam ocupando as terras situadas além dos lotes já destinados a imigrantes italianos e assim sucessivamente”. Dessa forma, os imigrantes, vindos de diferentes regiões da Itália, não permaneceram em núcleos específicos, distribuindo-se ao lado de falantes de diferentes dialetos italianos. Por essa razão, em sua maioria, os grupos étnico-linguísticos não eram afins. Estima-se que no início da colonização existiam cerca de dezoito dialetos entre os imigrantes, que tiveram diferentes representatividades e tempo de vigência. Nessa proximidade interlinguística foi-se constituindo uma coiné que proponderou sobre as demais. Salvo algumas exceções em que vinham da mesma província italiana, na mesma data e foram destinados a linhas ou travessões próximos, dando origem a uma comunidade típica, onde até hoje prevalece o dialeto de sua origem, mesmo com a interferência da coiné, hoje denominada talian. O significado dessa convivência de dialetos e sua análise merecem uma atenção interdisciplinar, que vem ocorrendo, com pesquisas históricas, sociolinguísticas, etnolinguísticas, para abranger os processos de variação linguística e suas consequências. Porém, neste momento, interessa reconhecer que essas variedades dialetais foram atuantes num processo de amalmagamento de sistemas linguísticos, com a influência da língua portuguesa, e desde este início já institui um patrimônio linguístico rico e complexo. Entender um sistema cultural em mudança é importante para apreender a dinâmica da cultura. Na comunicação como um processo cultural, percebe-se a língua como um produto dessa cultura. Por outro lado, não existiria cultura se o homem não tivesse a possibilidade de desenvolver um sistema articulado de comunicação. Considerada uma língua brasileira, o talian, atualmente, é expressão linguística da cultura taliana. Sua compreensão é fundamental para a compreensão da própria história regional e brasileira, em diferentes campos de conhecimento, para além do sociolingüístico. O perfil que o talian vai adquirindo é resultado, também, da política linguística adotada pelo poder constitucional em decretar, para todo o país, a língua portuguesa como a única forma oficial aceita de expressão (oral e escrita) de comunicação. Não há como negar que uma lei de tamanho poder e abrangência não possa ter interferido na trajetória das demais línguas faladas no país de então. A proibição do uso das línguas de imigração ocorrida na década de 1930, aliada à falta de uma percepção mais clara do significado social do uso e manutenção da língua proibida, repercute de maneira distinta, em espaços mais urbanizados e em espaços mais isolados. Nesse sentido, a língua passa por diferentes estágios de status, acompanhando imigrantes e descendentes desde o período de conquista da simples sobrevivência até o período de expansão financeira, política e cultural, advinda a partir da comemoração dos 100 anos de colonização italiana (1975).

3.2 Presente

Mesmo com todas as referências estabelecidas em relação à cultura do ítalo-brasileiro, o valor de mercado do talian é inerente ao seu status de língua de imigração, até hoje sem reconhecimento de língua oficial e, por um período de tempo, proibida de ser falada em público, relegada ao ambiente familiar e marcada pejorativamente como “dialeto”, “língua errada”, “língua falsa” e “língua de colono grosso”. A pesquisa mostrou que o talian, a língua de origem, é bem aceito e tem reconhecimento na comunidade local, especialmente rural, onde todos se conhecem e têm orgulho de sua origem e de sua língua. A saída do mundo agrário acarreta dificuldades de comunicação, não só pelo uso do talian, mas pelas interferências, principalmente fonéticas, da variedade dialetal italiana no português, a língua exigida na comunidade maior, mais urbanizada. Esses fatores extralinguísticos contribuem para a perda e desprestígio da fala dialetal italiana. Há a segregação dentro do próprio grupo de imigrantes, isto é, forma-se um novo grupo de descendentes: os que se localizam nas cidades, portanto mais urbanos e enriquecidos, que veem os menos favorecidos e rurais como colonos, no sentido pejorativo do termo, inferiorizando-os social e linguisticamente, seja pelo falar dialetal italiano, seja pela fala do português com forte pronúncia italiana (ver FROSI, 2003). Esses dois fatos unidos, o domínio do português e a posição social-financeira dão origem a um estigma social que marcou os descendentes ítalo-brasileiros durante muito tempo e talvez até hoje. Como o controle da imposição do português foi maior nos centros urbanos, foi nestes que a língua mais rapidamente se amoldou às novas regras emanadas do poder dominante. O uso da língua, então, fez-se não por escolha, mas por imposição. A partir de 1975, com o centenário da chegada do imigrante italiano á Serra, a figura do imigrante sofreu uma transformação, chegando a ser visto como um herói. Desse momento em diante, o mito passou a fazer parte dos assuntos, das comemorações e da própria história. A escolha dos pontos a serem pesquisados se deu, então, por essa história. As cidades que já fizeram parte do que um dia se chamou de antigas, novas e novíssimas colônias do Rio Grande do Sul, juntamente com seus desmembramentos em outros estados, como Santa Catarina, Paraná e Mato Grosso tiveram prioridade na coleta de dados do presente Inventário.

2 - População da comunidade linguística

2.2 Estimativa da população total

Não existe estimativa.

2.3 Observações

Não existe uma estimativa do número de falantes do Talian. Pretende-se obter esses dados por meio de censos municipais.

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