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Sakurabiat

Início Módulo 3 - Comunidade Linguística Sakurabiat

1 - Identificação da Comunidade Linguística

1.2 Projeto

Língua Sakurabiat

1.3 A comunidade linguística pode ser classificada como:

Línguas Indígenas

1.4 Língua do Inventário

Sakurabiat

Indígenas

Identifique a Etnia

Sakurabiat

3 - Caracterização da comunidade linguística

3.1 Histórico

As primeiras notas sobre o contato entre não-índios e os povos indígenas que ocupavam a margem direita do rio Guaporé remontam ao século XVII. Os anciãos relatam que antes do contato com não indígenas, havia contatos amistosos e também bélicos com outros grupos da região, como os Tupari e os Makurap. Os contatos entre os povos indígenas da região do Guaporé e os colonizadores passaram a ser retomados a partir do final da década de 1930 e início da década de 1940, período em que aumentou a indústria de extração de borracha e caucho. Com a exploração da borracha e do caucho, muitos seringueiros passaram a ocupar as áreas próximas aos tributários do rio Guaporé e entraram em conflito com os povos indígenas daquela região, incluindo os atuais Sakurabiat, os quais foram fortemente afetados. Muitas famílias foram forçadas a abandonarem seus territórios/aldeias e acabaram vivendo nos barracões de seringa, cooptados para o trabalho de extração da borracha. Os remanescentes dos quatro subgrupos étnicos reunidos sobre a autodenominação Sakurabiat, que vivem atualmente na TI Rio Mequéns relatam que os não indígenas chegaram na região em que moravam tradicionalmente em meados da década de 1930. Relatam ainda que os vários subgrupos da hoje autodenominada sociedade Sakurabiat sofreram uma violenta redução populacional após a chegada de um boliviano (algumas vezes também identificado como sendo peruano) chamado Magipo, que se instalou na região do rio Mequéns, explorando a extração de borracha, inclusive utilizando mão-de-obra indígena. Nessa época, os anciãos relatam que foram obrigados a falar português e proibidos de falar na língua indígena. Segundo relatos dos anciãos da comunidade, o grupo foi afetado por várias epidemias de doenças, como sarampo e gripe, provocando uma acelerada depopulação. Eles contam que havia várias aldeias, cada uma com uma população que variava de 40 a 200 pessoas, e que essas aldeias foram sendo sistematicamente abandonadas à medida que as pessoas pereciam devido às 'doenças de kwerep (branco)'. O grupo total seria formado nessa época por milhares de pessoas, pertencentes a vários subgrupos. Em 1934, o etnólogo Emil Snethlage (Snethlage, 1937) visitou várias sociedades indígenas da bacia do rio Guaporé e encontrou as aldeias dos atuais Sakurabiat e menciona dois dos subgrupos étnicos, os Guarategaja (Korategayat) e os Amniapé (mãpi-apeyat). As aldeias estavam localizadas próximas às cabeceiras do rio Mequéns, e segundo seus relatos apresentavam uma população total de aproximadamente 500 pessoas. Na década de 1940, houve uma tentativa, que não logrou muito sucesso, do Serviço de Proteção ao Índio (SPI) de reunir os povos indígenas que habitavam a área dos rios Guaporé, Corumbiara, Colorado e Mequéns, em Postos Indígenas de Atração (PIA), especialmente o PIA Ricardo Franco e o PIA Ministro Pedro de Toledo. Entretanto, os PIAs nunca funcionaram como planejado e os povos indígenas, quando podiam, preferiam permanecer em seus territórios, embora vários deles, incluindo alguns Sakurabiat, tenham ido morar nos PIAs. Por volta de 1949, o próprio SPI reconhece a ineficácia do PIA Ministro Pedro de Toledo. Em decorrência disso, os Sakurabiat (Mekens) e outros povos indígenas da região deixaram de receber qualquer apoio ou orientação dos órgãos governamentais, conforme relatado pelos anciãos da comunidade e por Leonel Jr. (1985). Informações mais significativas sobre o período de 1949 a 1982 não foram localizadas. No ano de 1982, funcionários da Fundação Nacional do Índio (FUNAI) - órgão indigenista que substituiu o SPI a partir de 1967 - visitaram a atual área da TI Rio Mequéns, onde viviam em grandes dificuldades, na época, os Sakurabiat e algumas famílias Makurap, porém nenhum apoio mais específico por parte do órgão federal resultou dessa visita. Somente em 1983, após um surto de doença, provavelmente sarampo, que dizimou cerca de 30 pessoas, foi re- estabelecido um contato mais estreito com a FUNAI. Em 1985, a FUNAI organizou um grupo de trabalho para investigar a situação real dos moradores da área hoje demarcada e seus direitos como população nativa e habitante imemorial da região. Foi constatado que naquele ano havia cinco grandes grupos corporativos, incluindo serrarias e fazendas, explorando ilegalmente o comércio de madeira dentro da área indígena e tentando apropriar-se da terra pertencente à atual TI Rio Mequéns (Leonel Jr 1985). Os Sakurabiat não trabalhavam nessa época diretamente para as serrarias, mas tinham seu território ocupado e sofriam restrição de acesso a algumas áreas ocupadas. A partir das informações históricas e etnográficas e de documentos de origem governamental, o grupo de trabalho confirmou a presença imemorial dos Sakurabiat e Makurap na região e recomendou a imediata demarcação da terra indígena. Após muita resistência dos invasores e muita luta dos Sakurabiat, em 1996, a TI Rio Mequéns foi demarcada e homologada, com uma área de 105.250 hectares, bem inferior ao tamanho originalmente demandado pelos Sakurabiat. A língua tradicional dos Sakurabiat, a partir desse histórico de contato, tem perdido prestígio e espaço para a língua portuguesa. Nas últimas duas décadas, embora haja sempre a vontade expressa de reforçar o uso da língua tradicional e de ensina-la aos jovens e ás crianças, isso não chega a ser implementado, resultando na atual situação de vulnerabilidade da língua, relatado nas seções anteriores. Na década de 1990, a língua Sakurabiat contava com 23-25 falantes fluentes e já havia uma ruptura na transmissão. Naquela época as crianças já não aprendiam Sakurabiat, houve apenas duas exceções, um casal de crianças, hoje adultas, que haviam sido criadas na mesma residência com sua avó e aprendido com ela a falar Sakurabiat (Galucio, 2001). O número de falantes reduziu em 50% desde então. Além de não ter havido transmissão intergeracional por mais de três décadas, houve um alto número de mortes (tanto em decorrência de fatores naturais quanto de homicídios) de idosos e outros falantes adultos de Sakurabiat.

3.2 Presente

Os Sakurabiat são um povo agricultor, caçador. Tradicionalmente produzem a bebida de macaxeira doce e azeda (conhecida regionalmente como Chicha), que caracteriza vários grupos da região do Guaporé. Vários desses grupos, incluindo os Sakurabiat, fazem parte de um complexo cultural, descrito como o complexo cultural do marico (Maldi, 1991), nomeado em função da bolsa tradicional, tecida com fio da palha de tucum, conhecida regionalmente como marico.

A principal unidade de produção e consumo é o grupo doméstico, geralmente formado por um pai e seus filhos/filhas casados e suas filhas e filhos solteiros. O contato com os não indígenas é regular. As aldeias não são distante das localidades não indígenas, que são constantemente frequentadas. As pessoas vão para as localidades de cidades mais próximas para fazer compras, sacar os benefícios sociais e os salários, ter atendimento médico e passear.

As crianças em idade escolar de todas as aldeias saem diariamente para frequentar a escola nas localidades mais próximas das respectivas aldeias, a Vila Bosco, no caso das aldeias 90 (Aipere Koopi) e Mariano, e localidade Flor da Serra, no caso das aldeias Soopipari e Baixa Verde. Apenas as turmas de ensino fundamental (1º ao 3º ano) são ministradas pela professora indígena na escola da aldeia Baixa Verde.

A situação de perda e mudança linguística entre os Sakurabiat resultou que duas gerações de crianças não aprenderam a língua tradicional do grupo. Português é falado por todos os Sakurabiat e é a primeira e única língua de todas as crianças nascidas na T. I. Rio Mequens, pelo menos desde o início da década de 1990, e da maioria da população.

Em levantamento realizado por nós em 2016-2017, havia 15 falantes fluentes (plenos) de Sakurabiat e 10 falantes parciais, pessoas que compreendem sentenças, mas não conseguem estabelecer um diálogo na língua. Desde então, houve uma redução para 12 falantes fluentes e 09 falantes parciais, devido ao falecimento de 04 pessoas.

2 - População da comunidade linguística

2.1 População identificada na pesquisa

89

2.2 Estimativa da população total

89

2.3 Observações

A população de indivíduos da comunidade de referência totalizava, em julho de 2019, 89 pessoas, distribuídas da seguinte forma: 83 indígenas Sakurabiat e 06 não indígenas (05 homens e 01 mulher) casados com indígenas Sakurabiat (dados de 2016 e 2017, atualizados em 2019). Essa população está distribuída em 05 aldeias: aldeia 90, atualmente sendo renomeada para Aipere Koopi; aldeia Mariano (também conhecida como aldeia do Joãozinho); aldeia Baixa Verde; aldeia Soopipari; e aldeia Kwai. Incluem-se ainda duas famílias que moram nas proximidades da Terra Indígena, mas não propriamente dentro da T.I.: são mulheres indígenas da etnia Sakurabiat, casadas com não indígenas, e seus filhos.

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Além das 89 pessoas referidas no item 2.1 acima, algumas famílias moram na Terra Indígena Rio Branco, e outras famílias residem em áreas urbanas, nos municípios de Pimenta Bueno, Cacoal, Vilhena e São Felipe. Há também informações sobre famílias da etnia Sakurabiat que residem na localidade de Porto Rolim de Moura do Guaporé, povoado às margens do rio Mequéns, onde vive também um grupo de pessoas do povo Wajuru.
Segundo as informações disponíveis, exceto por um homem que mudou-se para um desses centros urbanos há alguns anos, após uma violenta briga na aldeia que resultou na morte de outro indígena, e por um ancião que reside na Terra Indígena Rio Branco, não há falantes da língua entre as pessoas que moram fora da Terra Indígena Rio Mequéns.
Na Terra Indígena Rio Branco vive o povo Kampé, constituído por uma população de aproximadamente 60 pessoas, entre as quais se incluía o último falante da variedade Siokweriat (referida nos últimos anos como Kampé). Considerando a relação de parentesco entre os Kampé e os Sakurabiat, e o fato de o Sr. Pedro Sakurabiat (ou Pedro Kampé) falar uma variante da língua Sakurabiat, a população Kampé é também incluída na estimativa de população total da comunidade linguística.

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