1 - Identificação da Comunidade Linguística
1.2 Projeto
1.3 A comunidade linguística pode ser classificada como:
1.4 Língua do Inventário
3 - Caracterização da comunidade linguística
3.1 Histórico
O Documento Final da II Assembleia Continental do Povo Guarani, realizado em abril de 2007, resume magistralmente a movimentação orgânica do povo Guarani sobre o território latino-americano. “Nosso território, Ywy Rupá, foi cortado, várias vezes, por fronteiras entre países e estados. Fizeram guerras para roubar nossas terras. Por isso, hoje, nosso povo ficou dividido entre Brasil, Argentina, Uruguai, Paraguai e Bolívia. Para nós não existem fronteiras. Continuamos visitando nossos parentes e tentando andar livremente, como fazíamos em tempos passados. No entanto, percebemos que cada vez mais estes países desenvolvem políticas que nos impedem de viver ao nosso modo. Em alguns países, nos chamam de estrangeiros, de forasteiros, e dizem que não podem reconhecer o direito a nossas terras porque elas não nos pertencem. Mesmo assim, nós continuamos lutando por nosso território e pelo fim de todo tipo de fronteira que impede de vivermos livremente.”
Em 2006, o vice-cacique da aldeia Tapixi, no estado do Paraná, Içario, relatou o deslocamento entre países e estados brasileiros da própria família, justificando-o do seguinte modo: “Meu lugar de nascimento está debaixo da água. A empresa de Itaipu alagou tudo, e no lugar onde nasci, agora só tem água. Quando eu tinha dois anos de idade, minha família mudou para Ocoí. Naquela época só tinha gente do Paraguai, mas teve uma briga com os Guarani que chegaram lá e eles foram expulsos e vieram para esta região do Paraná. A vida era muito difícil. Meus pais tiveram que me doar para uma família do Paraguai. Eu fiquei com eles dos 12 até os 18 anos, quando perguntei para meu patrão sobre minha família e de onde eu vim. Ele contou que eu fui doado para eles e indicou para eu vir aqui para Água Santa encontrar minha mãe. Quando cheguei na aldeia de Água Santa, minha mãe estava muito pobre; ela só tinha um pedaço de mbojapé para me dar, mas eu já tinha conta no banco e dinheiro, então fui fazer uma comprinha para ela. (...) Você sabia que lá no Paraguai eles não demarcam a terra e não tem órgão indigenista igual à FUNAI? O patrão doa um pedaço de terra, dá veneno, ferramentas e adubo e depois cobra uma parte da produção. Mas a terra nunca é dos Guarani. É por isso que muita gente vem aqui para o Brasil.”
Tem-se afirmado com frequência o sentido mítico da movimentação dos Guarani (a busca da Terra sem Mal) no território. De fato, será possível recuperar em muitos estudos e depoimentos essa verdade fundadora do povo Guarani, fundamental para que se mantenha cultural e linguisticamente coeso. No entanto, as narrativas apresentadas corroboram uma história de massacres e violências que também marca, e profundamente, a trajetória dos Guarani no continente sul-americano. Este tipo de deslocamento obrigado, imposto, não se reduz às interpretações culturais que os alinham, naturalmente, a questões de modo de vida ou cosmologia Guarani. Pode ser que as práticas culturais sejam formas de absorver estes violentos atos de barbárie, já que acabam produzindo um arranjo simbólico que pode justificá-los. No entanto, não os elide. O litígio sobre a terra e sobre o direito à diferença, que estrutura a sociedade brasileira de modo geral, se fará presente na história dos Guarani e de inúmeros outros brasileiros. Ao observarmos, portanto, as determinações que impulsionam os deslocamentos territoriais dos Guarani Mbyá, queremos ressaltar, em coerência com a política de salvaguarda da língua implementada por este Inventário, que o confronto político de luta pela terra e pela diferença também está na sua base.
3.2 Presente
A mobilidade dos grupos Guarani é uma característica orgânica dessa etnia, sendo, portanto, “um aspecto que diz respeito às políticas públicas destinadas aos Guarani”. “A atualização das redes de parentesco e a mobilidade desempenham um papel fundamental para o modo de ser guarani", constituindo-se também como experiências de aprendizagem. Verá Nhamandu Mirim, professor da aldeia Parati Mirim/RJ, explicita a importância dos deslocamentos guarani e a dificuldade enfrentada atualmente devido à delimitação das terras indígenas. "Eu acho que aprendi muito fora da escola com a educação que recebi dos mais velhos. Uma coisa que eu aprendi que eu acho bem interessante é a forma de lidar com as coisas do mundo. (...) Meu pai também falava da plantação. Ele me ensinou que quando plantamos num lugar, depois que um tipo de planta der três vezes nesse lugar, sendo milho, mandioca ou qualquer outro tipo de planta, tem que sair e deixar aquele lugar. Meu pai dizia: “Nhanderu não quer mais que mexa nessa terra". Então, meu pai deixava aquele lugar, deixava o mato crescer. Era assim: meu pai fazia a roça e depois de um tempo saía e fazia roça em outro lugar. Quando chegava a hora, ele saía de novo e ia pra outro lugar. Nossa religião é assim. Por isso, quando a área era mais livre, quando não tinha essa política toda em cima de nós, os Guarani não paravam muito tempo num só lugar. Ainda hoje as pessoas comentam: “Pô, mas o Guarani não pára no lugar, fica andando pra lá e pra cá". Na época do meu pai, ele fazia isso por necessidade, mas hoje em dia a gente não pode mais fazer isso porque nossa área é toda delimitada. A área não é mais livre como antes. Na época do meu pai, ainda não tinha asfalto, não tinha essa divisão toda entre o estado do Rio e de São Paulo. Não tinha essa divisão política. Então, para o Guarani, tudo isso daqui era dele. Na verdade, era tudo parte do mundo guarani, era o lugar onde meus parentes viviam e trabalhavam. Tinha outros grupos indígenas também que a gente não vê mais, como os Tupiniquim. Meu pai sempre me contava isso antes de morrer e foi uma coisa que me marcou muito porque foi uma coisa que ele viveu, foi uma coisa que ele fez no tempo dele."
No universo pesquisado pelo Inventário da Língua Guarani Mbyá, a constatação da presença da mobilidade entre as comunidades é notória. Esta mobilidade divide-se em “Movimentação Inter-Aldeias” e “Movimentação Intra-Aldeia”, a primeira correspondendo às mudanças realizadas de uma aldeia para outra e a segunda referindo-se às mudanças das famílias de uma residência para outra dentro de uma mesma comunidade.
2 - População da comunidade linguística
2.1 População identificada na pesquisa
Aproximadamente 5.745 habitantes
2.2 Estimativa da população total
Entre 6 e 7 mil indivíduos
2.3 Observações
As estimativas disponíveis fazem referência majoritariamente ao povo Guarani, considerado um dos maiores grupos indígenas do Brasil e América do Sul. Pela estimativa feita na Assembleia Continental realizada na cidade de Porto Alegre, em abril de 2007, são aproximadamente 225 mil Guarani vivendo no continente americano, em especial, no litoral dos estados brasileiros do Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Paraná, São Paulo, Rio de Janeiro e Espírito Santo, além de Mato Grosso do Sul, assim como na Argentina, Paraguai e Bolívia. Os dados do Centro de Trabalho Indigenista apontam para 70 mil no Brasil, Paraguai e Argentina. No Brasil, os dados variam. Segundo dados do Conselho Indigenista Missionário (CIMI), a população total Guarani soma 50.000, divididos nos grupos Pãi-Tavyterã ou Kaiowá; Mbya; Nhandeva ou Chiripa. O mesmo afirma Rodrigues (1984). Para Ladeira (2003), o Guarani seria falado no Brasil por uma população estimada em 34.000 (trinta e quatro mil) pessoas. Os falantes do Mbyá nesse montante seriam em número de 5.000 (cinco mil) a 6.000 (seis mil).
No Paraguai, a população Guarani, segundo o Censo Nacional de Población y Vivienda del Paraguay, do ano de 2002, era de 53.500 indivíduos, divididos nos grupos: Pãi-Tavyterã; Avá-Katú; Mbya; Ache; Guarani Ocidentais; Nhandeva. Na Argentina, o Instituto Nacional de Estadísticas y Censos indica que a população Guarani é de 42.073, divididos nos grupos Mbyá e Ava Guarani. Na Bolívia, a população Guarani soma 80.000 pessoas, do grupo Chiriguano, formando cerca de 300 comunidades, segundo a estimativa da Asamblea del Pueblo Guarani (APG), entidade que representa diretamente as comunidades.
Os Guarani compõem um grupo étnico extenso que apresenta uma série de características comuns nos diferentes subgrupos. Linguisticamente, pertencem ao tronco Tupi-Guarani e, no Brasil, estão subdivididos em três grupos dialetais distintos: Mbyá, Nhandeva (Ava ou Xiripá) e Kaiowá. Schaden foi quem primeiro classificou os subgrupos Guarani, afirmando que “os Guarani do Brasil Meridional podem ser divididos em três grandes grupos: os Ñhandeva (aos quais pertencem os Apopokuva, que se tornaram famosos pelo trabalho de Curt Nimuendaju), os Mbyá e os Kaiowá”.

