1 - Identificação da Comunidade Linguística
1.2 Projeto
1.3 A comunidade linguística pode ser classificada como:
1.4 Língua do Inventário
Indígenas
Identifique a Etnia
Nahukwa
3 - Caracterização da comunidade linguística
3.1 Histórico
Pesquisas arqueológicas realizadas na região do Alto Xingu encontraram indícios de que os primeiros grupos a ocuparem a região teriam sido grupos ancestrais dos atuais aruak do Xingu, por volta dos anos 800–900 d.C. A esses grupos chegaram os ancestrais dos atuais grupos karib da região e, pouco mais de um século depois (no século XVIII), há indícios da chegada dos grupos de língua tupi à região. Os Trumai (povo de língua isolada), por sua vez, teriam sido os últimos a se instalar na região dos formadores do rio Xingu. Segundo Heckenberger (2001a, p. 53), quando da passagem de Karl von den Steinen pela região no final do século XIX (1886 e 1894), já era possível notar que os povos karib que lá habitavam já haviam abandonado “sua distintiva manufatura da cerâmica, seu padrão de assentamento (malocas)”, enquanto que os povos tupi “abriram mão de sua belicosidade característica”. Ainda segundo o autor, “[...] esses diversos grupos — os aruak xinguanos do sul (Mehinako/Waurá/Kustenau) e os do norte (Yawalapiti), os karib e os tupi — amalgamaram-se no sistema cultural regional, plural, conhecido etnograficamente. Esse processo se iniciou em algum momento entre 1750 e 1884, mais provavelmente no período compreendido entre meados de 1700 e início de 1800, e, no curso de algumas gerações, esses grupos imigrantes foram aculturados à sociedade xinguana”.
Ainda segundo Heckenberger (2001b, p. 85), “os grupos karib mantiveram um padrão cultural distinto pelo menos desde o tempo datado pelos primeiros registros de sua presença na região (por volta de 1500) até depois de 1750, quando, oriundos do sul do lago Tahununu — na margem direita do rio Culuene, sua localização desde os tempos pré-históricos tardios — migraram para oeste, cruzando o Culuene. [...] Embora ambos tenham coabitado a bacia desde tempos pré-históricos tardios, os grupos karib se achavam concentrados nas periferias a sudeste da bacia (leste do rio Culuene), aparentemente representando uma única ou rápida sucessão de migrações por um ou poucos grupos ancestrais relacionados a todos os karib alto-xinguanos (evidenciado na proximidade linguística contemporânea). Esse grupo ancestral dividiu-se em três grupos dialetais principais antes de meados do século XVIII: um setentrional, ‘povo do lago (Tahuhnunu)’ (ancestrais dos Kuikuro e Matipu contemporâneos), um meridional (os ancestrais dos Kalapalo) e um ocidental (os ancestrais dos Nahukwá)”.
Segundo as hipóteses de Franchetto e de Heckenberger, os proto-Kuikuro e os proto-Matipu da localidade ou aldeia de Oti teriam se separado por volta de 1850 (Franchetto, 2001). Do território do grupo de Oti se originaram os Kuikuro (KK) e os Uagihütü, cujos sobreviventes se deslocaram para o norte, onde se juntaram aos sobreviventes Jagamü. A partir dessa época se processa a predominância da variante Nahukwa (Kalapalo), que fez com que as sucessivas gerações de Matipu-Uagihütü passassem a falar essa variante.
Tikugi, anciã Matipu, conta que, depois de terem saído de Oti, os antepassados Matipu foram fundar outra aldeia. Num primeiro momento ficaram em Nota, depois foram abrir Akugï embïpe, cujas terras, em seguida, esgotaram sua fertilidade para plantar a roça. Assim, saíram para outro lugar e abriram primeiro a aldeia de Uagihütü e depois a de Tafehengo. Quando estavam morando na aldeia Uagihütü, receberam a notícia da chegada dos irmãos Villas Boas. Foi lá que uma terrível epidemia de sarampo os atacou, trazida pela Expedição Roncador-Xingu. Um homem, Tagahikuegü, fugiu da doença, mas a levou consigo para Lahatua; em seguida, Lapija levou a doença para a aldeia Uagihütü, e assim ela se espalhou por todo o Alto Xingu. Tikugi conclui a sua narrativa dizendo que “Orçando nos juntou aqui, assim ficamos próximos de outras línguas, as línguas se misturaram; por isso hoje vocês falam acompanhando a forma de falar de outro povo, não é uma boa coisa”.
Outro depoimento foi dado por Jamatua, chefe da aldeia Matipu de Ngahünga, descendente Nahukwa. Este conta que nasceu na antiga aldeia dos Kalapalo, A’unugahüti, e que mudou com sua família para a aldeia de A’ahindzu e, de lá, para a aldeia Liahütü. Diz ele: “depois nos juntamos com os remanescentes Nahukwa porque éramos poucas pessoas; assim Orçando nos levou ao Posto Leonardo para escolhermos o nosso novo lugar”. Escolheram então o local atual e recordam que “Orçando nos fez sofrer muito, era triste mesmo”.
Como atestou Steinen, já no final do século XIX, Jaramü/Nahukwá e Uagihütü/Matipu tinham sido reduzidos a pouquíssimas famílias e se misturado. Matipu e Nahukwa de hoje são fruto da convivência numa mesma aldeia (Magijape), com intercasamentos do início do século XX até os anos 1970. Fissões e fusões de grupos locais influíram decisivamente na formação de variedades linguísticas e na supremacia de umas sobre outras: a variedade Nahukwa-Jagamü se tornou dominante para os Matipu.
Após Steinen, outras expedições científicas e militares entraram na região e registraram a presença de seus habitantes: Hermann Meyer (1897, referente à viagem de 1896), Max Schmidt (1905; 1942, referente à viagem de 1900–1901), Ramiro Noronha (1952, referente à viagem de 1920), Vicente de Vasconcelos (1945, referente à viagem de 1924–1925) e Vincent Petrullo (1932, referente à viagem de 1931). Todos mencionam grupos karib alto-xinguanos nos territórios onde os havia encontrado Steinen, mas com mudanças importantes: os Nahukwá tinham desaparecido do rio Culiseu (Curisevo), sendo que algumas poucas famílias sobreviventes às epidemias tinham se juntado aos também poucos sobreviventes Matipu na aldeia de Magijape.
A partir dos anos 1940, abre-se um novo capítulo da história dos povos xinguanos, associado à criação do Parque Nacional (mais tarde Indígena) do Xingu. Em 1943 foi criada a Expedição Roncador-Xingu (ERX), vanguarda da Fundação Brasil Central (FBC), para a ocupação das regiões centrais do Brasil. Os irmãos Villas Boas, que posteriormente criariam o Parque Indígena do Xingu, chegaram à região dos formadores do rio Xingu. Nos anos 1940 começam também as expedições científicas do Museu Nacional, que registraram um quadro de grandes mudanças. A contaminação por vírus de gripe e sarampo causou mais uma violenta depopulação, atingindo seu ápice na epidemia de sarampo de 1954. Com isso, os grupos karib dos rios Culiseu e Culuene foram obrigados a se deslocar para áreas mais próximas do Posto Leonardo, ao norte dos territórios tradicionais, passando a depender da assistência médica oferecida pelos postos da Fundação Brasil Central. Posteriormente, com a recuperação demográfica a partir dos anos 1960, graças às campanhas de vacinação, os diversos grupos locais começaram a se reorganizar e a reocupar seus territórios tradicionais, de fato nunca abandonados e continuamente visitados e utilizados por conterem sítios históricos, cemitérios e recursos naturais essenciais. A partir dos anos 1980, surgem novas aldeias, em um processo claro de recuperação demográfica e de reconstituição dos territórios originais.
3.2 Presente
Os Nahukwa são um dos povos de língua Karib que habitam a região sul do Parque Indígena do Xingu, também conhecida como Alto Xingu, um complexo multiétnico e multilíngue, composto por povos falantes de línguas pertencentes a diferentes troncos e famílias linguísticas: aruak (Mehináku, Wauja e Yawalapíti), karib (Kalapalo, Nahukwa, Kuikuro e Matipu) e tupi (Kamayurá e Aweti), além dos Trumái, que falam uma língua considerada isolada. A despeito das diferenças linguísticas, esses povos são culturalmente bastante homogêneos e são intensamente articulados por uma rede de comércio, casamentos e, sobretudo, pela participação em um conjunto de rituais regionais (Basso, 1973; Franchetto, 2001; Guerreiro Jr., 2012; Heckenberger, 2001; Viveiros de Castro, 1977).
Nesse sentido, os Nahukwa mantêm amplo contato com os demais povos que compõem o sistema xinguano, um contato que se atualiza em casamentos, visitas ou por meio de conversas via rádio e, atualmente, também por internet (e-mail e redes sociais) e por telefone celular.
Os primeiros contatos registrados dos Nahukwa com a sociedade nacional ocorreram ainda no século XVIII, mas foi a partir da década de 1950, com a chegada da Expedição Roncador-Xingu e a posterior criação do Parque Indígena do Xingu, que esse contato se intensificou.
Atualmente, todas as aldeias Nahukwa possuem amplo acesso a bens industrializados, que vão desde ferramentas de trabalho, passando por roupas, alimentos e equipamentos eletrônicos e eletrodomésticos. Apesar de não possuírem fornecimento de energia elétrica de forma regular, muitas aldeias contam com pequenos geradores de energia, movidos a combustível fóssil, que alimentam televisores, freezers, moedores de mandioca, serras e outros equipamentos eletrônicos diversos.
Vem aumentando também a frequência com que as pessoas circulam entre as aldeias e as cidades do entorno do Parque, seja buscando acesso à rede de atendimento à saúde, para adquirir combustível ou outros bens, para visitar amigos e parentes, participar de reuniões ou mesmo para se deslocarem a outras cidades para venda de artesanato.
Alguns jovens têm optado por se mudar para cidades próximas ao Parque, a fim de estudar em escolas da rede regular de ensino que consideram mais apropriadas para aprender português. Nesses casos, os jovens contam, quando possível, com a contribuição financeira dos pais e/ou realizam trabalhos eventuais durante o dia e estudam à noite. Em geral, esses jovens esperam retornar às suas aldeias de origem após a conclusão de seus estudos (que podem incluir ou não o ensino superior), tendo a expectativa de trabalhar nas aldeias.
2 - População da comunidade linguística
2.1 População identificada na pesquisa
62
2.2 Estimativa da população total
145
2.3 Observações
145 pessoas espalhadas em 12 aldeias do Parque Indígena do Xingu (3 aldeias Nahukwa e também aldeias de outros povos, onde os Nahukwa eventualmente se casam e/ou possuem parentes), mais a população residente nas cidades que compõem o território do Parque (quantitativo não estimado).
(Dados de 2013 disponíveis no Sistema de Informação da Atenção à Saúde Indígena — SIASI, do Ministério da Saúde)

