Metadados
Projeto
Língua do Inventário
8 - Grau de Transmissão da Língua de Referência
Grau de transmissão da língua
Observações
Se, durante quase 200 anos, o Hunsrückisch se manteve como língua da comunidade, isso se deve a diversos fatores, como a forma de ocupação do espaço pelos imigrantes no sul do Brasil, em áreas de certo modo pouco povoadas. O contato com o português e as condições de acesso e comunicação com as comunidades protegeram, em certo sentido, a língua de imigração de uma influência maior.
Nos últimos anos, porém, as novas tecnologias, a mobilidade crescente e a urbanização aceleraram a difusão do português como língua majoritária. Criaram-se novos desafios que pulverizam o uso da língua, antes dominante, agora compartilhado com novos valores e participantes.
Daí se pode dizer que a transmissão da língua passa por um estágio de crise, com o qual o Inventário e a própria comunidade têm de lidar, para determinar os rumos e as perspectivas da língua e do plurilinguismo a ela ligado.
9 - Escrita e Leitura
9.1 Identificar a existência de grafias
com múltiplos modelos de grafias.
9.3 Contrastar as grafias existentes
Veja-se, para tanto: SCHAUMLOEFFEL, Marco Aurélio. Questionamentos e discussões essenciais acerca de um possível sistema de escrita para o Hunsrückisch brasileiro. **Revista Trama**, v. 14, n. 31, p. 122-134, 2018. Disponível em: [http://schaumloeffel.net/wp/wp-content/uploads/2018/02/Hunsr%C3%BCckisch-schrei](http://schaumloeffel.net/wp/wp-content/uploads/2018/02/Hunsr%C3%BCckisch-schrei)
10 - Paisagem Linguística
10.2 Caso tenha marcado a opção "outros", explique:
Nas comunidades visitadas pelo IHLBrI, são inúmeros os exemplos da presença visual da língua de imigração alemã que moldam a paisagem local, seja no comércio, nos espaços públicos, nas informações turísticas, ou mesmo na toponímia e na expressão da identidade cultural e histórica local. Ela inclui, além disso, letreiros em estabelecimentos, placas de trânsito e indicações turísticas, inscrições em lápides, cartazes — por exemplo, de festas ou bailes —, entre outros.
Prioritariamente, esses registros ocorrem na variante do alemão standard, ou próxima dessa norma local. No entanto, muitas vezes é possível perceber, nessa norma local, marcas do Hunsrückisch e do contato com o português e com o contexto brasileiro.
No comércio, encontramos exemplos como o Restaurante Frühstück, em Lomba Grande, Novo Hamburgo, RS, e o Posto de Saúde Alles Gut, em Teutônia, RS. Entre os inúmeros exemplos de cartazes de festas coletados, estão a Frühlingsfest, em Nova Petrópolis, RS; Früchtefest, em Harmonia, RS; Kaffeeschneizfest, em Picada Café, RS; Kartoffelfest, em Santa Maria do Herval, RS; Septemberfest, em Linha Perau, Marquês de Souza, RS; Oktoberfest, em Santa Cruz do Sul, Porto Alegre, Maratá e Igrejinha, RS, e Itapiranga, SC, entre outras; Blumenfest, em Domingos Martins, ES, e Selbach, RS; Christkindfest, em Santa Cruz do Sul, RS; e Deutsche Woche, em São João do Oeste, SC. O Kerb, tradicional festa alemã, também é comemorado em muitos municípios, como a Kerbfest, em São Vendelino e em Dois Irmãos, RS.
Embora muitas das manifestações da escrituralidade dos hunsriqueanos ocorram na norma escrita do alemão standard, ou no mínimo em um Hochdeutsch local, encontramos também exemplos escritos em Hunsrückisch, mas nem sempre é possível separar as duas normas.
13 - Língua mais frequente
13.1 Língua mais frequentemente usada nas situações cotidianas
A comunidade de falantes de Hunsrückisch, é preciso considerar, formou-se a partir de processos de migração coletiva. Quando migraram, migraram grupos ligados pela língua, pela religião e pelo mesmo desejo de encontrar “uma terra para morar e ganhar seu sustento”. Esta ocupação do espaço não se deu, portanto, de modo individualizado, mas sim por meio de assentamentos coletivos que vieram a constituir as primeiras picadas, linhas ou travessões (hrs. Pikood var. Pikad, hdt. Schneise; v. DREHER, 2014a, p. 138s.), onde se instalavam as chamadas colônias. Essa tendência é tão caracteristicamente marcada que, mesmo as chamadas colônias mistas, que o Governo da República (a partir de 1890) tentou criar para obrigar os imigrantes e seus descendentes a usarem o português como língua comum, não são tão mistas como imaginávamos. Nos levantamentos do projeto ALMA-H, nos pontos das colônias novas do Rio Grande do Sul, o que encontramos foram picadas povoadas somente por alemães, somente por italianos ou somente por poloneses. Essa constatação explica a manutenção do Hunsrückisch como o encontramos, visto que havia – na vizinhança – uma rede de comunicação na língua.
13.3 Usos linguísticos especiais da língua de referência: Identificação dos usos especiais
14 - Situação Comunicativa
14.1 Situações comunicativas
Os alemães eram conhecidos pelo seu espírito associativo (MÜLLER, 1984, p. 80). Além das situações de uso do Hunsrückisch mencionadas, havia os salões de festas, clubes de dança, Sociedade de Canto (hdt. *Sängervereine*), Sociedade de Atiradores (hdt. *Schützenvereine*), cancha de bocha ou bolão, entre outras instituições que promoviam interações, diversão e promoção cultural. Esses espaços configuram o que Eckert (2004; 2006) chama de comunidades de prática, no sentido de que envolviam práticas linguísticas na “língua da comunidade”.
Nas entrevistas do IHLBrI, falou-se frequentemente sobre esse tema: o uso comunitário da língua Hunsrückisch. Sua relevância para a manutenção e retenção da língua é comprovada quando os entrevistados lamentam a falta de “pares para conversar”. Conversar, conversar e conversar é uma prática corrente do hunsriqueano, expressa por verbos como *vezehle* (Hrs.) ou *schwetze* (Hes.). *Dann wolle’ma mo vezehle* (pt. “então vamos conversar”) é uma frase frequente nas relações sociais dos hunsriqueanos. Seu sentido antropológico se combina com práticas como a visita e a roda de chimarrão, um aliado que, no Hrs., fomentou sobremaneira a prática da conversa informal.
14.3 Dinâmica dos usos da língua de referência
[2] Uso em retração
14.4 Justificativa e detalhamentos sobre a dinâmica de usos
O uso da língua Hunsrückisch, na área de referência, varia conforme a localidade e a territorialidade consideradas. Ele se mantém estável em áreas rurais, sobretudo nas colônias velhas; encontra-se em retração nos pontos periféricos da área de referência, onde não há mais o suporte institucional da escola e da igreja e onde, demograficamente, o Hunsrückisch não domina mais como língua de adstrato; e tem uso restrito em territorialidades urbanas, limitado ao domínio da família, ou já foi interrompido.
Uma síntese da dinâmica dos usos do Hunsrückisch, nos diversos âmbitos e domínios, encontra-se no livro final do Inventário (ALTENHOFEN; MORELLO et al., 2018, cap. 3).
15 - Usos linguísticos especiais da língua de referência
15.1 Uso linguístico especial
A língua Hunsrückisch caracteriza-se essencialmente como língua falada, língua da família, língua materna, língua da identidade e língua da comunidade (*community language*). Ela dialoga diretamente com a respectiva norma escrita do Hochdeutsch, que aparece como correlato escrito em documentos históricos, como inscrições em lápides de cemitérios, imprensa local, atas de sociedades recreativas, livro-caixa, registros da igreja, música, cartas privadas etc.
Esse uso aparece igualmente em situações formais, como o sermão na igreja ou programas de rádio, que mesclam o alemão local com o português e a norma do alemão standard. Paralelamente, no entanto, o Inventário constatou um uso crescente também de textos escritos em Hunsrückisch, motivado pelas novas tecnologias da comunicação, como o WhatsApp. Esse uso, porém, é primordialmente de cunho humorístico.
Usos literários vão ganhando terreno à medida que se fixa a escrita proposta neste Inventário e se produzem materiais escritos sobre a língua.
17 - Atitudes linguísticas da comunidade
Observações
Tal como nos âmbitos de manutenção e uso do Hunsrückisch, constatou-se, nos levantamentos para o IHLBrI, grande variação nas atitudes em relação à língua, que vão desde testemunhos apaixonados a favor até estigmatizações que rotulam o Hunsrückisch como “língua errada”. Esse comportamento atesta a relevância do Inventário para ações de conscientização linguística (*language awareness*, *Sprachaufklärung*).
17.2 Atitude em relação às demais línguas
O IHLBrI tem registros de falantes hunsriqueanos plurilíngues que, ao lado do Hunsrückisch e do português, falam mais de uma língua ou variedade do próprio alemão. No Paraguai, encontraram-se falantes hexalíngues: Hunsrückisch e português do Brasil, “castelhano” e guarani do Paraguai, além de Hochdeutsch e Plautdietsch no contato com menonitas no Chaco, com possibilidade de aquisição de noções de inglês, tendo em vista o intercâmbio com menonitas do Canadá e dos Estados Unidos.
Não raro, tem-se o perfil de um falante trilíngue em Hunsrückisch, como língua da família; alemão standard ou Hochdeutsch local; e português. Esse seria o perfil desejável para uma aquisição harmônica que, no entanto, ainda sofre preconceito no âmbito escolar, pela exclusão da língua da família.
Membros falantes de outras variedades de alemão, como boêmios, vestfalianos, *Kaffeeflicker* e, em parte, pomeranos — por exemplo, em pontos como RS06, RS09, RS12, ES01 e SC01 — tendem a aprender o Hunsrückisch como norma oral local. Não raro, chamam o Hunsrückisch de *Hochdeitsch* ou, simplesmente, *Deitsch* ou *Deutsch*.
Em relação ao português, ainda encontramos falantes com baixa proficiência na língua majoritária, especialmente na geração mais velha, mas também crianças que ingressam na escola falando exclusivamente o “alemão de casa”. Com a difusão das novas mídias e a mobilidade crescente da população, no entanto, esse número tem se reduzido drasticamente, ficando restrito a contextos rurais isolados. De modo geral, o que se constata é uma substituição linguística (*language shift*) cada vez mais acentuada.
18 - Síntese
18.1 Nesse momento, qual ou quais línguas a pesquisa identifica como dominante para a vida cotidiana e valores culturais na comunidade, incluindo os fatores considerados nesse diagnóstico (aquisição, transmissão, usos, atitudes)? É possível estabelecer uma hierarquia entre as línguas nesse sentido?
Língua 1: Português.
18.2 Justifique
O português aparece, hoje, como língua dominante na área de referência do Hunsrückisch. O Hunsrückisch mantém-se, na maioria das localidades pesquisadas, como língua da família, ou “alemão local”. O Hochdeutsch local aparece como variedade onipresente, em maior ou menor grau, e muitas vezes de modo parcial.
O ensino de alemão standard atinge ainda, comparativamente, uma área muito restrita — cerca de 30% do total da área de referência —, sobretudo em escolas municipais e particulares do Rio Grande do Sul, seguido de Santa Catarina e Paraná.
18.3 Panorama das línguas em contato
Pode-se afirmar que, embora o Hunsrückisch apareça como língua dominante na maioria
das localidades de referência, o que determina seu uso e configuração depende dos contatos
linguísticos que ocorrem em cada uma das regiões e localidades da pesquisa. A tabela a seguir
mostra os principais contatos do Hunsrückisch com alguma das 14 variedades do alemão
identificadas como língua de imigração no Brasil:
Variedade [denominações correntes em alemão
e em português]
Contato com o Hrs. na rede de pontos do
Inventário
1. Schweizer Deutsch, alemão suíço ---
2. Hunsrückisch, Hunsrick, Hunsbucklisch,
Hunsrücker Platt, Deitsch/Deutsch,
Plattdeitsch/Plattdeutsch, hunsriqueano
41 pontos de pesquisa selecionados para o ALMA-H
+ 03 pontos acrescentados pelo IHLBrI
3. Hochdeutsch, Alemão Em grau maior ou menor em todos os 41 + 03 pontos
de referência do Inventário (“variedade onipresente”)
4. Kaffeeflickersch (pt. lit. ‘língua de catador de
café’, da Turíngia
SC01a e SC01b
5. Pommerisch, pomerano, Platt RS06, RS13, RS15, RS21, ES01, ES02
6. Westfälisch, Vestfaliano, Plattdütsch, sapatode-pau
RS09, RS10, SC06, AR03, PY01
7. Böhmisch, Bihmsch, alemão boêmio RS06, RS09, RS10, RS12, RS13, RS15
8. Österreichisch, austríaco
---
9. Bayerisch, bávaro ---
10. Deutsch-Russisch, alemão-russo,
Wolgadeutsch, alemão do Wolga, russo-alemão
RS23
11. Bukowinisch, bucovino PR01
12. Schwäbisch, suábio RS19, AR03, PY01
13. Donauschwäbisch, suábio do Danúbio ---
14. Plautdietsch, Mennoniten-Deutsch,
Plautdietsch menonita, Platt menonita, alemão
menonita
PY01 [comunidades vizinhas], PY04 [comunidade
vizinha e migração para o Chaco]
3.1 Na comunidade de referência
Sem estimativa possível, dada a amplitude da área.
6.4 Há diferenças notáveis entre a aquisição da língua de referência em diferentes localidades investigadas?
Ambientes rurais de ocupação tradicional, nas colônias velhas, favorecem a aquisição. Pontos de grande mobilidade e com grau acentuado de urbanização favorecem a perda da língua Hunsrückisch. Uma descrição individualizada por localidade ainda está por fazer.
Observações
Tendo em vista que não existe uma instrução sistemática na língua inventariada, que é essencialmente falada, não se pode afirmar que haja uma proficiência regular na escrita e na leitura em Hunsrückisch. A produção escrita é, antes, exceção. A leitura em Hunsrückisch, no entanto, é mais difundida; um exemplo são as colunas em alemão/Hunsrückisch em jornais locais.
Por outro lado, não se pode dizer que a proficiência em escrita e leitura em Hunsrückisch seja nula; pelo contrário, ela se correlaciona ao letramento em alemão, que se dá não apenas pela escola, onde há ensino, mas também pela presença visual da língua em uma série de contextos locais, que englobam a paisagem linguística e as práticas sociais em alemão.

