1 - Identificação da Comunidade Linguística
1.2 Projeto
1.3 A comunidade linguística pode ser classificada como:
1.4 Língua do Inventário
3 - Caracterização da comunidade linguística
3.1 Histórico
Os Ỹaroamë fazem parte da primeira onda migratória que deixou a serra do Parima, descendo pelo rio Catrimani. Ao sofrerem pressão da chegada de grupos Yanomam na região do médio Catrimani, migraram para o leste, nas imediações dos rios Apiaú e Ajarani. Os Ỹaroamë teriam chegado ao interflúvio Mucajaí–Catrimani por volta de 1920. Relatos históricos descrevem que, já na década de 1940, alguns Ỹaroamë da região do Ajarani estabeleceram contato intermitente com balateiros e caçadores de peles (ou gateiros) que se lançavam em expedição na região dos rios Ajarani e Catrimani (Verdum, 1990). Essa relação, ainda que de baixa intensidade, foi suficiente para deflagrar uma sucessão de epidemias que tiveram grande impacto sobre a demografia desse grupo.
Em 1962, missionários da Ordem da Consolata fizeram a primeira viagem até a região do rio Ajarani, onde abriram uma pequena pista de pouso e uma roça com o apoio dos Ỹaroamë. Porém, os missionários deixaram a área três anos depois e o contato com o grupo passou a acontecer de forma muito esporádica. Os relatos do padre Sabatini sobre os Ỹaroamë descrevem um significativo isolamento do grupo, que utilizava machados de pedra, facas feitas com lascas de bambu e panelas de barro em seu cotidiano (Verdum, 1990).
A dificuldade em estabelecer relações com os Ỹaroamë está presente também em descrições de missionários evangélicos da UFM (atual MEVA), que, em 1957, valeram-se da mesma estratégia utilizada com os Ninam do Sul para contactar os Ỹaroamë, sobrevoando seu território e lançando anzóis e outros objetos. No caso dos Ninam, os missionários foram recebidos por um homem levantando um cacho de banana em direção ao avião, em sinal de amizade. Já no Apiaú, os Ỹaroamë receberam os missionários apontando uma flecha para o avião (Early e Peters, 1990).
A relativa resistência dos Ỹaroamë ao contato parecia antecipar os efeitos catastróficos que esses grupos viveriam a partir do momento em que a construção da Perimetral Norte (BR-210) passou literalmente por cima de seu território. A estrada fazia parte do Plano de Integração Nacional, um dos projetos desenvolvimentistas do governo militar da época. Assim, centenas de homens e maquinários avançaram pela floresta onde viviam grupos Ỹaroamë praticamente isolados ou com pouco contato, levando à morte de cerca de 22% da população desse grupo Yanomami que se conhecia na época (Verdum, 1990).
Com grandes áreas de roçado e caça dos Ỹaroamë tendo sido desmatadas para a abertura da estrada, muitos dos Ỹaroamë da Serra do Pacu e Ajarani passaram a viver em uma espécie de “nomadismo rodoviário”, deslocando-se de um acampamento de obra a outro em busca de alimentos (Ramos, 1979).
Como se não bastassem os impactos da estrada, na década de 1980 o Estado brasileiro promoveu a ocupação de não indígenas nesse território, ocupação que perdurou mesmo após a demarcação da Terra Indígena Yanomami, em 1992. Assim, reduzidos em pequenos grupos e desorganizados, os Ỹaroamë sobreviventes viveram durante décadas em situação de marginalização, realizando pequenos trabalhos nas fazendas instaladas em seu próprio território. O convívio nas fazendas, por sua vez, contribuiu para a disseminação do consumo de bebidas alcoólicas e para o aumento da dependência de alimentos industrializados.
A passagem abrupta da Perimetral Norte pelo território Ỹaroamë deixou, ainda hoje, marcas profundas entre os grupos sobreviventes, que seguem em busca de reestruturação social, uma vez que a estrada desorganizou o sistema produtivo e a vida aldeã desses grupos, causou perdas demográficas significativas devido a epidemias de gripe e sarampo, além da malária e da tuberculose.
3.2 Presente
Muitas comunidades Ỹaroamë se encontram em zonas de bilinguismo, seja com o Ninam (entre os Ỹaroamë do Apiaú) ou com o Yanomam (entre os grupos da Serra do Pacu). Uma considerável proporção dos adultos Ỹaroamë é bilíngue ou, por vezes, até trilíngue. Esse índice elevado de multilinguismo parece ser maior entre os Ỹaroamë quando comparado aos falantes de outras línguas Yanomami, o que se relaciona ao fato de o Ninam e o Yanomae — ambos presentes nessas zonas de bilinguismo com o Ỹaroamë — serem línguas de maior prestígio local.
As áreas de bilinguismo do Ỹaroamë são, portanto, assimétricas, estando a língua Ỹaroamë sempre em maior desvantagem, já que são raros, ou mesmo inexistentes, os falantes de Ninam ou Yanomae que aprendem Ỹaroamë. Nesse cenário, o bilinguismo pode representar uma ameaça à vitalidade da língua Ỹaroamë.
Como já mencionado, os Ỹaroamë ainda sofrem os efeitos da desestruturação social causada pelo impacto da construção da estrada em seu território na década de 1970. Um exame da pirâmide etária dos Opikitheri atualmente revela um pequeno número de idosos e adultos com mais de cinquenta anos. Sem referência do que seria uma vida aldeã considerada “saudável”, muitas famílias Ỹaroamë das serras têm se deslocado para centros urbanos, passando longos períodos fora das aldeias e, muitas vezes, submetendo-se a situações de exploração e violência.
Apesar dessas dificuldades, os Ỹaroamë continuam mantendo a vida aldeã, realizando festivais funerários, praticando o xamanismo, caçando, pescando e fazendo uso do amplo conhecimento que possuem da floresta. Alguns Ỹaroamë também comercializam farinha, castanha e açaí em centros urbanos próximos ao limite leste da Terra Indígena Yanomami.
2 - População da comunidade linguística
2.1 População identificada na pesquisa
140
2.2 Estimativa da população total
Ỹaroamë da Serra do Pacu: 140 pessoas
Ỹaroamë do Apiau: 156 pessoas
Ỹaroamë do Ajarani: 64 pessoas

