Metadados
1 - Comunidade de Referência
1.1 Número de falantes
2401 (questionários, surdos de referência e coleta da Grande
Florianópolis)
7 - Taxa de Transmissão da língua de referência
7.1 Faixa Etária
Infância 0-12
8 - Grau de Transmissão da Língua de Referência
Grau de transmissão da língua
Observações
A partir da coleta realizada por meio dos questionários e entrevistas, evidenciou-se que a aquisição da língua de sinais ocorre tardiamente, isto é, após os quatro anos de idade. Além disso, o contexto escolar é identificado como o principal ambiente de contato com a língua, pois muitos surdos nascem em famílias de ouvintes e não têm contato com a língua de sinais no lar. No questionário, 80% dos surdos declararam ter adquirido a língua de sinais depois dos quatro anos de idade e 44% desses participantes afirmaram ter adquirido a primeira língua na escola. Nesse sentido, pode-se considerar que a transmissão da língua de sinais encontra-se em crise, uma vez que essa língua não é utilizada pela maioria das famílias de surdos.
9 - Escrita e Leitura
9.1 Identificar a existência de grafias
com múltiplos modelos de grafias.
9.2 Caracterizar as grafias existentes
SignWriting | Escrita das Línguas de Sinais (ELiS) | Sistema de Escrita para Línguas de Sinais (SEL)
9.4 As pessoas da comunidade costumam escrever na sua própria língua?
Não
9.6 Há quanto tempo existe o uso da escrita na língua de referência pela comunidade?
Há menos de 25 anos
9.7 Pode-se dizer que existe uma tradição de textos escritos em diferentes gêneros discursivos na comunidade?
Não
9.9 As pessoas da comunidade costumam escrever em português?
Sim
9.10 Quais tipos de textos?
Textos escolares, acadêmicos e textos para interação nas redes sociais e celular.
13 - Língua mais frequente
13.1 Língua mais frequentemente usada nas situações cotidianas
Língua 1: Língua Brasileira de Sinais | Língua 2: Língua Portuguesa (oral e escrita)
14 - Situação Comunicativa
14.1 Situações comunicativas
O ambiente escolar é escolhido por 30% dos participantes surdos como o principal espaço de uso da Língua Brasileira de Sinais, seguido por 27% que afirmam usar a língua de sinais com mais frequência em momentos de lazer e 23% que a utilizam no local de trabalho. Mais uma vez, o lar é declarado por uma pequena parte dos usuários surdos como o espaço de predominância da língua de sinais, cerca de 18%. As associações e igrejas, embora tenham sido os contextos de aquisição de grande parte dos sujeitos surdos, são os espaços onde eles menos utilizam a Libras no cotidiano, com 1% cada um.
Os usuários da Língua Brasileira de Sinais – ouvintes ou surdos – são, em sua maioria, bilíngues. Entretanto, para cada um dos grupos, as línguas possuem uma representação diferente e isso relaciona-se ao papel da primeira e segunda língua no cotidiano desses sujeitos. No caso dos surdos, quando questionados sobre as línguas que falam/sinalizam, a maioria afirmou usar apenas a Língua Brasileira de Sinais, em seguida a Língua Portuguesa – modalidade oral, em terceiro lugar optam pela modalidade escrita da Língua Portuguesa e um número menor declara saber as duas línguas. Nessa pergunta, os participantes podiam escolher mais de uma opção de resposta.
Os usuários surdos afirmaram que a Língua Brasileira de Sinais é utilizada com mais frequência para se comunicar com os amigos. Em segundo lugar, os professores são interlocutores muito presentes no cotidiano desses usuários e, em seguida, a família e os alunos. Essas informações ratificam o resultado apresentado anteriormente sobre os locais onde a Libras é mais utilizada pelos usuários surdos, uma vez que a escola e o lazer apareceram como os contextos onde há maior contato com a língua de sinais.
14.3 Dinâmica dos usos da língua de referência
[4] Uso em expansão
14.4 Justificativa e detalhamentos sobre a dinâmica de usos
Os dados coletados por meio do questionário e das entrevistas indicam que a Língua Brasileira de Sinais está em expansão. Os resultados referentes aos contextos de aquisição e de uso dessa língua apontam para o crescimento da presença da Libras em diferentes espaços, como as escolas e universidades. O reconhecimento da Libras a partir da Lei n. 10.436/2002 e os avanços nas políticas linguísticas e educacionais corroboraram para a efetiva difusão da língua de sinais, o que ocorreu, por exemplo, com a formação de profissionais surdos e ouvintes em todo o território nacional com a implantação dos cursos de Letras Libras. Apesar disso, o fato já apontado sobre a transmissão é preocupante, pois mantém-se o risco de a Libras ser extinta em longo prazo, pois o espaço escolar é o espaço de transmissão da Libras, uma vez que as crianças surdas nascem em famílias de ouvintes que, na sua maioria, desconhecem a Libras e a cultura surda. É fundamental investirmos na educação bilíngue que preveja o agrupamento de surdos com referências surdas adultas na escola, para que essa expansão seja consistente.
17 - Atitudes linguísticas da comunidade
17.1 Grau de atitudes dos falantes com relação à língua de referência
17.2 Atitude em relação às demais línguas
A presente pesquisa buscou avaliar a relação dos surdos e ouvintes com a Língua Portuguesa. Embora o Inventário tenha como proposta documentar a língua de sinais, Não se pode desconsiderar a Língua Portuguesa desse processo, pois esse grupo de usuários possui uma relação bastante peculiar com as duas línguas, em virtude do processo de aquisição/aprendizagem de cada uma delas. Para explorar essas questões, foram apresentadas frases que buscavam explorar as atitudes linguísticas dos falantes e os participantes poderiam escolher a resposta em uma escala de 1 a 5, sendo que o primeiro grau significava “discordo plenamente” e o último grau correspondia a “concordo plenamente”. Para os surdos, a Língua Portuguesa é uma segunda língua e foi constatado nesta pesquisa que apenas 12% concordam plenamente com a afirmativa sobre se sentir confortável usando essa língua. A maior parte das respostas se concentrou na opção 3, cerca de 35%, a qual indica uma imparcialidade dos surdos quanto ao uso da Língua Portuguesa. A Língua Brasileira de Sinais e a Língua Portuguesa são duas línguas que coexistem e estão presentes no cotidiano dos usuários da língua de sinais, especialmente dos ouvintes. Por conta dessa proximidade, é comum que muitas vezes a produção em língua de sinais sofra influência da língua portuguesa de tal forma que os aspectos gramaticais da língua de modalidade oral/auditiva se façam presentes e ocasionem o chamado “português sinalizado”. Nessa pesquisa, grande parte dos usuários surdos demonstrou não aprovar esse tipo de produção e discordou plenamente da afirmativa: “O Português sinalizado é Libras também”. Entre os ouvintes, a manifestação contrária ao enunciado também se sobressaiu e 70% dos participantes discordaram totalmente da questão apresentada. Esse resultado demonstra a consciência desses usuários quanto às diferenças gramaticais das duas línguas. Uma outra questão muito discutida pela comunidade surda é o uso concomitante da Língua Portuguesa e da Língua Brasileira de Sinais, o bimodalismo. Essa prática foi adotada por muito tempo na educação de surdos, pois se acreditava que utilizar todas as formas de comunicação era a melhor estratégia na prática de ensino. No entanto, tal metodologia não alcançou os resultados esperados e o uso simultâneo das duas línguas de modalidades diferentes. Esse tipo de produção é visto como sistema artificial considerado inadequado, pois desconsidera a riqueza estrutural da língua de sinais e também desestrutura o português (QUADROS, 1997). Sendo assim, a presente pesquisa buscou avaliar a posição dos usuários surdos quanto à prática mencionada: “Você se sente confortável usando Libras e Português ao mesmo tempo”. A maioria dos surdos, em torno de 29%, discordou plenamente da frase, mesmo assim é possível perceber que entre os surdos há uma divisão de opinião acerca do uso das duas línguas simultaneamente, já que a porcentagem nas outras opções de respostas variou entre 15% e 21%. Assim como os surdos, a maior parte dos usuários ouvintes não se sente confortável em usar a Língua Brasileira de Sinais e a Língua Portuguesa ao mesmo tempo. Dos 1.491 respondentes, 559 discordaram plenamente da afirmativa, o que equivale a aproximadamente 37% dos participantes. Entre os surdos, essa porcentagem foi menor e houve um maior equilíbrio nas outras opções de respostas. De certa forma, esses resultados indicam que os ouvintes se sentem mais incomodados com o uso das duas línguas simultaneamente. Além do mais, como aprendizes da Libras como segunda língua, esses usuários demonstram consciência das diferenças linguísticas entre as duas línguas e percebem que a produção conjunta pode ser prejudicial para o desenvolvimento da língua de sinais, haja vista a impossibilidade de preservar as estruturas das línguas quando produzidas ao mesmo tempo (FERREIRA BRITO, 1993 apud QUADROS, 1997). Para 61% dos participantes surdos, a Libras não é inferior ao Português. Esse número é bastante expressivo em comparação com a questão anterior e demonstra que, mesmo acreditando que o Português apresente mais detalhes que a Libras, esses usuários não a veem como uma língua inferior. Entretanto, cerca de 8% dos surdos discordaram completamente de tal afirmativa. Aproximadamente 87% dos usuários ouvintes discordaram da afirmativa “Você acha que a Libras é inferior ao Português” e apenas 1% concordou com esse enunciado. Nesse caso, o resultado foi bastante expressivo e indica que os ouvintes possuem consciência das especificidades inerentes às duas línguas. Além disso, percebem que a Língua Brasileira de Sinais é uma língua com características equivalentes às línguas orais.
18 - Síntese
18.1 Nesse momento, qual ou quais línguas a pesquisa identifica como dominante para a vida cotidiana e valores culturais na comunidade, incluindo os fatores considerados nesse diagnóstico (aquisição, transmissão, usos, atitudes)? É possível estabelecer uma hierarquia entre as línguas nesse sentido?
Língua 1: Língua Portuguesa e Língua Brasileira de Sinais
18.2 Justifique
A Língua Brasileira de Sinais apresenta uma característica diferenciada em relação às outras línguas minoritárias por ser uma língua presente em todo o território nacional, reconhecida como forma de comunicação da comunidade surda. Além disso, a Língua Portuguesa é utilizada constantemente pelos usuários da língua de sinais, por ser o idioma oficial do Brasil e língua utilizada e veiculada em todo o país. Para os usuários surdos, a Língua Portuguesa, na modalidade escrita, é uma segunda língua e, para os ouvintes usuários da Libras, trata-se da primeira língua. Nesse sentido, apesar de a Língua Brasileira de Sinais ser a língua dominante para os surdos, ela não é a língua dominante no território da língua de referência, tendo em vista que essa língua é utilizada em todas as regiões brasileiras. Nesse caso, a Língua Portuguesa caracteriza-se como uma língua dominante em território nacional e a Língua Brasileira de Sinais como uma língua dominante entre os usuários surdos. Nos termos da Língua Portuguesa e da Libras, ambas podem ser eleitas primárias pelos bilíngues bimodais, ou seja, os surdos e os ouvintes que usam a Libras e a Língua Portuguesa podem eleger uma destas línguas como aquela que está sendo prioritariamente usada em determinados contextos. Apesar disso, os resultados das nossas pesquisas indicam que, no caso específico dos surdos, a preferência pela Libras como primária, língua dominante, é constante. O português acaba sempre assumindo um papel secundário, embora em alguns contextos dominante.
18.3 Panorama das línguas em contato
Os dados coletados para constituição do inventário buscaram explorar questões relacionadas à aquisição da Libras, aos contextos de aprendizagem e à transmissão da língua. Com base no resultado do questionário aplicado com 861 surdos, percebe-se que a idade de aquisição da língua é preocupante, pois 80% dos surdos declararam que a aquisição da Língua Brasileira de Sinais ocorreu após os quatro anos de idade, período considerado tardio para o desenvolvimento da linguagem. O fato de os surdos nascerem, predominantemente, em famílias ouvintes pode ser um motivador para esse atraso na aquisição, pois a língua compartilhada no ambiente familiar não é a mesma da criança surda. O Decreto n. 5.626/2005 apresenta orientações acerca dos direitos dos surdos ao atendimento e à assistência à saúde, incluindo a realização de diagnóstico, atendimento precoce, encaminhamento para a área de educação e orientações para a família sobre a importância de a criança surda ter acesso à Libras desde o seu nascimento. A maior parte dos usuários surdos declarou ter desenvolvido a aquisição da linguagem dos 5 aos 12 anos de idade, 39%, enquanto 26% tiveram acesso entre os 13 e 18 anos e 15% declararam ter adquirido a linguagem após os 18 anos. Apenas 20% dos participantes afirmaram ter desenvolvido a aquisição da língua de sinais no período adequado, dos 0 aos 4 anos de idade.
2 - Comunidade Linguística
2.1 Número de falantes
Dados do IBGE
3.1 Na comunidade de referência
Inexistente. Todos apresentam algum grau de bilinguismo (Libras e Língua Portuguesa)
3.2 Na comunidade linguística
Não temos como estimar (Dados inacessíveis)
3.3 Em português na comunidade de referência
Inexistente
3.4 Em português na comunidade linguística
Não temos como estimar (Dados inacessíveis)
3.5 Nas demais línguas faladas no território na comunidade de referência
Inexistente
3.6 Nas demais línguas faladas no território na comunidade linguística
Não temos como estimar (Dados inacessíveis)
4.1 Quantos também falam português na comunidade de referência?
2.401 usam a língua escrita do português (questionários, surdos de referência e coleta da Grande Florianópolis)
4.2 Quantos também falam português na comunidade linguística?
Não temos como estimar (Dados inacessíveis)
4.3 Quantos também falam uma outra língua na comunidade de referência?
Os surdos entrevistados apresentam diferentes níveis de oralidade do português.
4.4 Quantos também falam uma outra língua na comunidade linguística?
Não temos como estimar (Dados inacessíveis)
5.1 Quantos indivíduos na comunidade de referência que falam três ou mais línguas?
Os surdos de referência com nível de mestrado e doutorado leem inglês, usam a Língua de Sinais Americana e/ou a Língua de Sinais Internacional.
5.2 Quantos indivíduos na comunidade linguística que falam três ou mais línguas?
Não temos como estimar (Dados inacessíveis)
5.3 Quais são as línguas mais comuns faladas por indivíduos que dominam mais de duas?
Inglês
6.1 Qual língua é mais comumente aprendida como primeira língua?
Língua 1 Ouvintes - Língua Portuguesa Codas - Libras e Língua Portuguesa | Língua 2 Ouvintes - Língua Brasileira de Sinais Surdos - Língua Portuguesa | Língua 3 Inglês
6.2 Qual língua é mais comumente aprendida como segunda língua?
Língua 1 Surdos - Língua Portuguesa Ouvintes - Língua Brasileira de Sinais
6.3 Para as línguas adquiridas como segunda língua, indique
Língua:
Surdos - Língua Portuguesa como segunda língua para surdos Ouvintes - Libras como segunda língua para ouvintes
Em que fase da vida dos indivíduos a língua é adquirida?
Surdos - Idade escolar - A partir dos seis anos Ouvintes - 70,5% das pessoas que responderam o questionário declararam ter iniciado o aprendizado a partir dos 18 anos de idade.
Em que contextos sociais ela está sendo adquirida?
Surdos - Instituições de ensino
Ouvintes - Instituições de ensino e igrejas
6.4 Há diferenças notáveis entre a aquisição da língua de referência em diferentes localidades investigadas?
Diferença entre capitais, grandes centro urbanos e cidades menores.
Há uma grande concentração de surdos nos grandes centros urbanos. Os surdos que estão situados em cidades menores, normalmente procuram se inserir, mesmo que eventualmente, nas comunidades surdas desses grandes centros urbanos. Os grandes centros urbanos apresentam diferentes formas de organização social estruturadas por meio de associações de surdos ou outros tipos de organizações sociais. As escolas também impactam diretamente na organização dessas comunidades. A existência de escolas de surdos possibilita uma organização social e práticas linguísticas entre crianças e jovens surdos que já se inserem também nas comunidades surdas locais. A Grande Florianópolis tem vários grupos de surdos que se organizam a partir de associações de surdos ou encontros locais. Esses surdos integram nativos da região e surdos universitários que vêm estudar nessa região. Isso favorece um contato intenso entre surdos de diferentes regiões do país. Por outro lado, os surdos de referência do país que participaram da pesquisas evidenciam uma inserção social e política mais intensa representando seu estado e todos os surdos brasileiros. As produções registradas evidenciam que a Libras é uma língua nacional com variações linguísticas que se apresentam nas línguas com vários elementos que evidenciam o intenso contato com a língua portuguesa. As variações registradas podem ser categorizadas como regionais e, também, atreladas a questões de idade (surdos mais jovens e surdos mais velhos), especialmente evidenciadas no inventário da Grande Florianópolis. Por outro lado, o registro de produções em nível nacional evidencia a estabilidade inerente à Libras que a configura como língua nacional.
Observações
A escrita da Língua Brasileira de Sinais ainda não está consolidada entre os usuários da língua de referência. Há propostas de escritas para a referida língua, mas não estão disseminadas e presentes em todo o território nacional, especialmente na educação dos surdos. Nos gráficos a seguir, apresentamos informações coletadas por meio do questionário e que trazem dados quanto ao uso da escrita de sinais entre os usuários surdos e ouvintes.
12.1 Número de falantes com proficiência plena em leitura
130
12.3 Número de falantes com proficiência plena em escrita
130
12.5 Número de falantes com proficiência parcial em leitura
704
12.7 Número de falantes com proficiência parcial em escrita
704
12.9 Número de falantes sem proficiência em leitura
27
12.11 Número de falantes sem proficiência em escrita
27
Observações
Os números apresentados na tabela são provenientes do questionário aplicado com 861 surdos. Não é possível apresentar uma estimativa em relação à comunidade linguística, pois não temos essa informação em razão de a Língua Brasileira de Sinais estar disseminada por todo o território nacional e ser utilizada por surdos e ouvintes. O português é uma segunda língua para os sujeitos surdos.

