4 - Síntese das características da área da comunidade de referência da língua
4.1 Características sociais
Festas, encontros entre parentes, no dia-a-dia das famílias em que todos falam a língua, ou entre casais e filhos que falam a língua. Nas reuniões há sempre um momento de fala na língua.
4.2 Características geográficas
Geologia, Geomorfologia e Solos
O Rio Tocantins acompanha uma antiga zona de ruptura de placas continentais, representando uma linha que corre na direção N-S, do Araguaia ao Paraguai. Além de exercer controle sobre o leito do Tocantins, esta zona de ruptura faz com que a região do Trocará exiba uma geologia relativamente variada, pois na medida que nos afastamos da influência aluvionar/sedimentar do leito do rio e seu vale imediato em direção oeste, para as terras mais altas conhecidas como “Serra do Trocará”, encontramos com formações metasedimentares e intrusões de basalto. Aproximadamente um terço da Terra Indígena pertence ao complexo geomorfológico do vale do Tocantins, caracterizado pela presença de paleocanais e solos arenosos, resíduos de processos fluviais e da movimentação de sedimentos pelo rio. De forma geral, os solos desta parte da Terra Indígena são latossolos amarelos álicos e solos glei indiscriminados, formados a partir de aluviões antigos arenosos e aluviões recentes arenosos e argilosos, ambos datando do Quaternário, com relevo plano a suave ondulado. Observa-se em vários pontos a ocorrência de seixos rolados, de origem fluvial, no perfil do solo. Vários corpos d’água na Terra Indígena também têm sua origem nos processos geomorfológicos fluviais. O Lago Apinajé, pela sua configuração e localização, representa um paleocanal, hoje separado e distinto da calha principal do Tocantins, porém recebendo influência deste durante as cheias. Mesmo assim, há indícios que o Lago Apinajé tem evoluído sua própria bacia de captação, com uma porção desta bacia ficando fora da Terra Indígena. Foi indicado que o Igarapé do Tabocal, que atravessa a Rodovia Transcametá no km 10, seria uma das suas cabeceiras. A análise de imagens de satélite mostrou a presença de outros lagos, bem como áreas baixas que representam zonas de colmatação. Ao longo do tempo, essa zona baixa de influência geomorfológica do vale do Tocantins tem evoluído sua própria rede de drenagem, tal como o Igarapé Carrapatinho, que circunda a aldeia Trocará, desaguando no Igarapé Ipiratia. Estes igarapés, como o Igarapé Apinajé (que drena o lago), exibem água cor de chá, resultado das substâncias húmicas em solução. Estas substâncias provém da decomposição da matéria orgânica na floresta, sendo lixiviadas pelos solos arenosos de alta permeabilidade. A aldeia Trocará está localizada num platô baixo, aparentemente tendo com base uma formação de conglomerado de seixos rolados numa matriz ferralítica. O nível deste platô é acima da cota máxima atingida pelo Rio Tocantins durante a grande enchente de 1980, motivo pelo qual foi escolhido para o estabelecimento da nova aldeia. Ao causar impedimentos à drenagem, provavelmente esta camada é responsável pela existência de uma área de campo natural próximo da aldeia.
4.3 Características ecológicas
Nas cassadas e atividades de pesca e coleta, assim como na roça, mas apenas por famílias falantes da língua.
4.4 Características econômicas
O extrativismo faz parte da economia Asuriní há mais de quarenta anos. Quando os Asuriní moravam na beira do Tocantins (até 1980), utilizavam um barco denominado Kajuangawa para viagens semanais para a venda de castanha, farinha e carne de caça em Tucuruí. A venda de açaí, no entanto, só iniciou após a construção do ramal da rodovia Trans-cametá, até a aldeia. Destes itens, a castanha e o açaí continuam sendo elementos importantes na economia Asuriní. Enquanto o açaí é colhido nos açaízais próximos da aldeia, a castanha pode ser coletada tanto próximo como em locais mais distantes, tal como no Igarapé Urubu, onde os Asuriní permanecem acampados por 1-3 semanas. Nestes acampamentos, só vão os homens, pois a coleta da castanha ocorre no período do inverno e as condições de chuva e mosquitos são desagradáveis para as mulheres e crianças. A safra de castanha em 2006 (no início do ano), no entanto, foi muito fraca.
Outro produto da floresta que tem tido uma importância crescente é o bacurí. Anteriormente os Asuriní vendiam só as frutas em Tucuruí, mas atualmente, com o advento da energia elétrica na aldeia, tem sido possível vender a polpa congelada. Porake e sua família têm sido ativos nesta atividade, colhendo e despolpando o bacuri na floresta, e acondicionando a polpa em sacos plásticos. No início do ano, Porake estava com 134 kg de polpa congelada em Tucuruí, aguardando um comprador. Atualmente, a polpa de bacurí é a polpa mais valorizada no mercado paraense, pois sua produção vem quase que inteiramente da produção extrativista, a qual não consegue suprir a demanda.
O açaí é outro importante produto extrativista. Seus frutos são colhidos para venda em Tucuruí, onde há muitas lojas com máquinas batedeiras de açaí. Ao lado da escola na aldeia foi construída uma pequena casa com máquina para bater açaí, que serve a comunidade. A safra principal é no início do ano, mas há uma safra menor no mês de agosto, fato interessante, na medida que esta época é considerada como entressafra em outras regiões do Pará.
Numa primeira instância, foi informado que o uso dos recursos extrativistas é comunitário, sendo que qualquer indivíduo pode colher castanha, açaí, etc., não havendo a posse individual ou por grupos destes recursos. No entanto, indagações mais aprofundadas sobre o assunto indicaram que há uma divisão no acesso a estes recursos, conforme a natureza de cada um deles. Com exceção de algumas castanheiras próximas da aldeia, os castanhais são considerados de posse de determinados grupos, que montam excursões para juntar os ouriços caídos, abrindo-os com facão para retirar as castanhas, e ensacando para levar de volta à aldeia. Já o açaí pode ser colhido por qualquer pessoa. De forma semelhante, o bacurí pode também ser coletado por qualquer pessoa. No entanto, observamos que certos caminhos são preferencialmente usados por determinados grupos, portanto pode haver uma divisão terrritorial mais geral que influencia quem pode coletar o bacurí.
Apresentamos a seguir um esboço dos aspectos gerais da agricultura Asuriní, e das mudanças que têm ocorrido ao passar das décadas. Conforme os relatos dos mais idosos, antes da fixação no Posto da FUNAI na beira do Tocantins, os Asuriní viviam em grupos menores e tinham como costume mudar periodicamente o sítio das suas aldeias, talvez de 5 em 5 anos, provavelmente em função da diminuição da disponibilidade local dos animais de caça, sua principal fonte de proteína. O lider do grupo abria uma roça em um local promissor, e se este local se mostrasse bom para moradia, o acampamento era transformada em aldeia nova.
Após o contato e fixação dos Asuriní no Posto da Funai, às margens do Tocantins, este padrão de distribuição de aldeias e ocupação territorial se alterou. Houve também a influência dos funcionários da Funai sobre as roças, pois buscava-se entrosar os Asuriní na economia de mercado, através da venda de farinha de mandioca, e a introdução de outras culturas, tais como o arroz, plantadas numa grande roça comunitária.
Nas décadas recentes as roças passaram a ser feitas por grupos familiares, reproduzindo, de certa forma, o modelo agrícola anterior ao contato.
No geral, porém, há o esgotamento de locais adequados para fazer roças nos arredores da aldeia. Além da roça comunitária, vários grupos familiares fazem roças menores, utilizando a área de capoeiras no entorno da aldeia. Porém, uma das reclamações da comunidade é que a distância até as roças tem ficado muito grande, dificultando o transporte dos produtos até a aldeia.
Enquanto no passado a mudança periódica das aldeias permitia a instalação das roças em terrenos virgens, a ocupação permanente do atual sítio resultou numa grande zona de florestas secundárias no entorno da aldeia. Estas capoeiras podem ser reutilizadas, sendo que o prazo para a recuperação parcial da fertilidade pelo pousio é variável, conforme as características do solo e das práticas de cultivo que foram empregadas na roça. Mesmo assim, termina ocorrendo o esgotamento de locais adequados para colocar roças nas proximidades da aldeia, obrigando o deslocamento das roças para locais mais distantes.
4.5 Semelhanças e diferenças sociolinguísticas marcantes entre as localidades de ocorrência da língua
Não há.
4.6 Síntese das situações de risco para a comunidade linguística e a língua
Casamentos com não índios, proximidade da cidade, entrada intermitente de não indígenas na Terra Indígena, presença de uma escola desreipetosa.
1 - Dados Gerais
1.2 Projeto
1.3 Língua do Inventário
3.1 A população falante da língua se encontra:
Concentrada em uma área geográfica
2.1 Existem localidades de ocorrência da língua fora da área de abrangência da pesquisa
Não
2.2 Localidades
Tipo de localidade
Na área de abrangência da pesquisa
É comunidade de referência?
Sim
Faz parte da área ocupada pela comunidade de referência da língua?
Sim
Demografia
População de falantes da língua não é demograficamente majoritária
Temporalidade
há menos de 75 anos
Infraestrutura
Possui escola de nível básico | Possui escola de nível fundamental
Economia
É um dos locais onde a língua se encontra em maior risco

