1 - Identificação da Comunidade Linguística
1.2 Projeto
1.3 A comunidade linguística pode ser classificada como:
1.4 Língua do Inventário
Indígenas
Identifique a Etnia
Amondawa, povo Kawahiba, família Tupi-Guarani, tronco Tupi.
Autodenominação da Etnia
O povo Amondawa sempre conta que era um grupo junto dos demais povos Kawahiba, que são o Parintintim, o Tenharim, o Juma, o Diahoi, o Uru-Eu-Wau-Wau, o Capivari, o Karipuna, o Piripkura e o Apiaká.
3 - Caracterização da comunidade linguística
3.1 Histórico
Tem sido atribuído o termo Kawahiba (Kagwahiva ~ Kawahiv ~ Kawahiva ~ Kawahiba) a um complexo dialetal composto por, no mínimo, oito dialetos ainda existentes e falados por diferentes etnias conhecidas como Uru-Eu-Wau-Wau (ou Jupa’u), Amondawa, Karipuna de Rondônia, Parintintim, Tenharim, Juma, Diahoi e Piripkura. Outro povo também pertencente ao pan-Kawahiba, mas já extinto, é o Capivari, do qual restou um falante de 97 anos, que mora com os Karitiana, povo do Tronco Tupi, família Arikém, em Rondônia. Outros dois povos que vivem em Mato Grosso, o Apiaká, cuja última falante morreu em 2013, e o Kayabi, são tidos como Kawahiba. No entanto, a filiação linguística desses povos ao pan-Kawahiba necessita de mais pesquisas. Isso principalmente quanto aos Kayabi, dos quais os Karipuna de Rondônia não se lembram de estarem juntos no passado durante suas migrações para “a terra onde o sol se põe, o oeste”. Há ainda povos que vivem em isolamento na T.I Uru-Eu-Wau-Wau, entre os quais os Urupain, que são Kawahiba, segundo os Amondawa e os Uru-Eu-Wau-Wau, bem como povos de não filiação ao pan-Kawahiba, chamados pelos Kawahiba de Wyryparyrekwara, “aqueles de flecha grande”. Outros dialetos, dado como extintos, caso dos Kawahiba que habitavam áreas próximas ao rio Machado, como os Paranawat (NIMUENDAJÚ, 1981 [1944]) e Wiraféd (NIMUENDAJÚ, 1981 [1944], 1955); também em um tributário deste mesmo rio, mais próximo do rio Muqui, caso dos Takwatip (NIMUENDAJÚ, 1948, 1981 [1944]; LÉVI-STRAUSS, 1955, p. 379-439; MEIRELLES e MEIRELLES, 1981, p. 139-140); e os Ipotewát, no rio Machado, falavam dialetos desta língua. Lévi-Strauss (1955) também menciona grupos que já estavam quase em extinção à época e que moravam perto do rio Machado/Ji- Paraná, como os Tucumanfét e os Jabotiféd, e os já extintos no momento, os Mialat, que habitavam na região do rio Leitão, em 1938. O grupo conhecido como Piripkura (palavra Gavião que significa “borboleta”), atualmente em fase de contato, também fala um dialeto Kawahiba. Além disso, há um falante do dialeto Capivari com 97 anos e que mora com os Karitiana, outro povo Tupi, Segundo os Karipuna, esse povo que andava próximo à região do Rio Capivari, em Rondônia. Historicamente, há evidências de que essas etnias pertenceram a um ancestral comum, dados os relatos que os próprios Amondawa, Uru-Eu-Wau-Wau e Karipuna contam a respeito do histórico de migração do povo. Dizem eles que antigamente todos os indígenas Kawahiba estavam juntos e, então, se separaram, principalmente, por conta de brigas internas cuja motivação é sempre tratada como um tabu. Um mapa etno-histórico de Nimuendajú (1981 [1944]; cf. Mapa 2 na seção ANEXOS) aponta que os grupos Amondawa, Uru-Eu-Wau-Wau e Karipuna - e possivelmente os demais povos Kawahiba que estiveram em Rondônia - provêm de um dos três grupos que se separaram do ancestral comum que habitava a foz do rio Tapajós quando fugiram, espremidos pelos Munduruku - outro povo Tupi - seus inimigos à época. A figura a seguir identifica a localização atual dos Munduruku e dos povos Kawahiba. Figura 12. Localização atual dos Kawahiba e Munduruku Um desses povos, possivelmente os Parintintim e Tenharim, se refugiou próximo ao rio Marmelos; outro, os Apiaká, cuja língua se encontra extinta, se estabeleceu próximo ao Alto Tapajós; e, por último, temos os remanescentes dos Amondawa, Uru-Eu-Wau-Wau, Karipuna e Capivari, que teriam entrado em Rondônia pelos afluentes do rio Madeira, rios Jaci-Paraná e Jamari (LEONEL, 1995, p. 33). Os primeiros relatos sistemáticos a respeito dos Kawahiba nos são dados por Nimuendajú (1924; 1948), quando este foi designado pelo SPI (Serviço de Proteção ao Índio) para fazer o primeiro contato com os indígenas Kawahiba do rio Madeira, no Amazonas, que, neste caso, eram pertencentes à etnia Parintintim: No século 18, uma tribo chamada Cabahica viveu no Alto Tapajóz, entre as confluências do rio Arinos e Juruena e na foz do rio São Manoel. A informação sobre essa tribo é escassa, parcialmente pelo fato de que ela nunca viveu nas margens de algum grande rio, diferentemente de seus vizinhos, os Apiacá (NIMUENDAJÚ, 1948, p. 283). Os anciãos Uru-Eu-Wau-Wau da linha 621, o casal Boakara e Manda, e os da linha 623, Paijupi e Borea, lembram que nos tempos antigos estavam juntos com os povos Tenharim e Amondawa. Borea ainda conta que encontraram com os Karitiana durante suas migrações, grupo da família Arikém do tronco Tupi, que se localiza no extremo norte do estado de Rondônia; e com os Apiaká, da Família Tupi- Guarani, Tronco Tupi. Este povo tem sido considerado na literatura como também um povo Kawahiba. Os povos Kawahiba mencionados se dispersaram devido aos ataques dos não indígenas àquela época. Além disso, brigas internas levaram os hoje Amondawa, Uru-Eu-Wau-Wau, Karipuna, Capivaria e Tenharim a se separarem posteriormente. Ainda por conta dessas brigas, houve mais dispersões. Dessa vez, os Uru-Eu-Wau-Wau se deslocaram para um lugar chamado de Comandante Ary, em Rondônia. Lá, tiveram contato com a FUNAI (Fundação Nacional do Índio) na década de 80, numa expedição organizada pelos sertanistas Zebel, Apoena Meireles e outros indígenas de povos residentes em Rondônia, os quais tinham o objetivo de salvar os Kawahiba de um iminente encontro fatal para os indígenas. Ademais, dentre os indígenas que ajudaram na expedição, estavam presentes indígenas de povos Paiter Suruí, Tenharim e Wari. Esse contato foi responsável pela morte de boa parte dos Kawahiba. Alguns ainda tentaram voltar e ir até os Amondawa. Já contaminados, também levaram doenças, o que ocasionou a morte de indivíduos Amondawa e Uru-Eu-Wau-Wau à época. Já os Karipuna se lembram de que seus antepassados contavam que todos os Kawahiba estavam juntos. Esses Kawahiba eram os Tenharim, os Parintintin, os Amondawa, os Diahoi, os Juma, os Piripkura e os Uru-Eu-Wau-Wau na região atualmente estado de Mato Grosso. Nessas andanças, seus antepassados contavam que se lembravam até de que guerrearam com os Xavante, povo Jê, que mora no Parque Indígena no Xingu. Saíram vitoriosos, principalmente porque eram muitos Kawahiba. Como bons Tupi, migravam constantemente. Durante essas migrações, alguns povos Kawahiba foram ficando em regiões que lhes apraziam. Esse foi o caso dos Piripkura, de quem hoje se sabe que há três falantes, Rita, casada com Aripã Karipuna e, por isso, vive boa parte do seu tempo na aldeia dos Karipuna, e seus irmãos, que preferiram o isolamento voluntário na T.I Piripkura, no estado do Mato Grosso. Batiti Piripkura, exímio narrador das andanças do seu povo, e quem guardou boa parte daquilo que seus antepassados narravam, conta que os demais Kawahiba seguiram suas andanças sempre tendo como direção o “lugar onde o sol se põe”. “Queríamos conhecer as terras onde o sol se põe, porque viemos de onde ele nasce... de um lugar perto do mar”, diz ele. Após a dissidência dos Piripkura, os Kawahiba atravessaram o Rio Machado. A terra onde se encontravam agora já era no estado do Amazonas. Aqui, ficaram os Parintintim, Tenharim e Diahoi. Gostaram da região e decidiram se instalar por essas bandas desde já. Seguiram viagem Uru-Eu-Wau-Wau, Amondawa, Karipuna, Capivari e Juma. Entraram novamente em Rondônia subindo o rio Madeira e, desse agrupamento maior, partiram por outro sentido, os Uru-Eu-Wau-Wau e Amondawa. Disseram que sabiam onde se encontrar quando precisassem. Os Karipuna, Juma e Capivari subiram o rio chamado de Contra pelos Karipuna, e ficaram pelas suas margens até os Capivari decidirem também se separarem indo em direção às cabeceiras do Jacy-Paraná. Tempos depois, os Juma e os Karipuna encontraram-se com povos Wari. Houve várias guerras, com várias mortes do lado dos Kawahiba, até que esses indígenas decidiram reunir todos os Kawahiba de Rondônia para extinguir os Wari, que já estavam até zombando das mortes dos Kawahiba. Desse modo, Uru-Eu-Wau-Wau e Amondawa vieram de encontro aos demais Kawahiba e se uniram para a maior guerra que teriam contra a ameaça Wari. Nesse momento, entusiasticamente, contam Batiti e Aripã, que até as crianças Kawahiba foram armadas com “bordunas” feitas de pupunheira. Localizada a grande aldeia dos Wari que, conforme Batiti, tinha mais de 600 Wari dentro de uma única maloca gigante, era a vez dos Kawahiba aguardarem o momento certo. Nesses dias os Wari estavam comemorando as mortes dos Kawahiba. Era festa, portanto. Passaram-se três dias cercando a aldeia dos Wari, até que um pajé Kawahiba disse que o momento de atacar era agora. Alguns homens Kawahiba entraram na maloca e cortaram a corda dos arcos dos Wari. Depois de todas as cordas cortadas e checadas para confirmadas, um Wari se levanta para urinar, o que poderia levar ao início do ataque. Ao voltar, o Wari é surpreendido com um golpe de bordunha feito de pupunheira. É o início do massacre dos Wari pelas mãos dos Kawahiba. Alguns conseguiram fugir pelos fundos da maloca em direção à mata densa. Os Kawahiba imediatamente ateiam fogo na maloca e queimam alguns. Outros Wari observam de longe a sua maloca em chamas e começaram a chorar. Estava tudo escuro. Os Wari não viam, mas os Kawahiba estavam à espreita comemorando contidamente ao ouvirem os soluços de choro dos Wari. “Bem feito. Você matou meu irmão, agora eu mato o teu parente”, diziam os Kawahiba, felizes com o grande feito.
3.2 Presente
Os Amondawa são falantes de uma língua da família Tupi-Guarani, do Tronco Tupi, e compõem o conjunto pan-Kawahiba junto de outros, no mínimo, 11 povos identificados como Kawahiba. Neste caso, a literatura inclui os Tenharim, os Parintintim, os Juma, os Diahoi, os Uru-Eu-Wau-Wau (Jupa’u), os Capivari, os Karipuna, os Apiaká, os Piripkura e os Kayabi.
Há ainda um povo Kawahiba isolado, que resiste ao contato com a sociedade nacional, caso dos Urupain. Os Uru-Eu-Wau-Wau também afirmam que há outro povo isolado na T.I. Uru-Eu-Wau-Wau, mas que não é Kawahiba. A esse, dá-se o nome Wyrapararakwara, “indígenas de flecha grande”.
Culturalmente, como foi primeiramente observado por Denófrio (2013, p. 17) e confirmado em nosso trabalho de campo, esses povos se caracterizam por fazerem uso de tatuagens faciais que se diferenciam entre homens e mulheres, como se verifica na imagem abaixo, extraída de Nimuendajú (1924). É interessante notar a observação de Denófrio (op. cit., p. 17) de que os Piripkura não se lembram de fazer uso de tatuagens. Figura 13. Tatuagens masculina e feminina Kawahiba.
Dentre os traços culturais dos Kawahiba, podem-se mencionar as técnicas de aumento do pênis; cintos masculinos feitos de cipó; estojo que acompanha o pênis; cabelos curtos; não consumação de tabaco; a prática da agricultura; a prática ritual de exo-antropofagia; terminologia de parentesco do tipo dravidiano; metades exogâmicas patrilineares não localizadas, com nomes de aves, Mutum e Gavião Real, no caso dos Parintintin, Amondawa, Uru-Eu-Wau-Wau e Karipuna; residência que tende a ser uxorilocal com circunstâncias neolocais; relações entre genros e sogros caracterizadas pelo imperativo da dívida e do dom; xamanismo horizontal; sistema de mudança onomástica, em que os nomes denotam os clãs, os sexos, as idades; e a dispersão geográfica e a autonomia política do grupo local (DENÓFRIO, 2013, p. 17).
No que respeita às relações sociais dos Amondawa com a sociedade não indígena, como já mencionado, é bastante pacífica. Os indígenas, por vezes, vendem produtos, como farinha de mandioca e milho, aos não indígenas que moram próximos à aldeia, na linha vicinal que passa em frente à entrada desta.
Anexar mídias(s)/Fazer upload de mídias(s)
2 - População da comunidade linguística
2.1 População identificada na pesquisa
132
2.2 Estimativa da população total
126 Amondawa
2.3 Observações
132 pessoas vivem na aldeia Trincheira, dos quais quatro (4) são não indígenas, um (1) é Uru-Eu-Wau-Wau e uma (1) é Gavião.

