Metadados
Projeto
Língua do Inventário
8 - Grau de Transmissão da Língua de Referência
Grau de transmissão da língua
Observações
O grau de transmissão da língua variou de acordo com o local pesquisado. A pesquisa revelou, no entanto, que, no geral, há baixa transmissão linguística de uma geração para outra. Na tabela 8, há uma perda linguística na dimensão diageracional em todos os pontos. Esse dado pode comprovar uma tendência generalizada de perda linguística de geração a geração, mesmo em um ambiente bastante favorável à manutenção da língua de origem. Isso também foi verificado nas demais regiões pesquisadas e nos dados do projeto BIRS, por Altenhofen, 1990, em todo o Rio Grande do Sul, e por Confortin, 1998, na Região do Alto Uruguai Gaúcho. Entretanto, ao se verificar o intervalo existente entre as gerações, nos quatro diferentes pontos, chama a atenção que Erechim, justamente o ponto mais urbanizado, e Severiano de Almeida, o ponto mais rural e mais isolado, tenham a situação mais estável, 8,20% e 7,02%, respectivamente, ou seja, apresentam a menor perda da língua minoritária entre as gerações GII e GI. Em outras palavras, nesses dois pontos há uma maior transmissão intergeracional. É preciso dizer, também, que, embora se trate de um município com índice relativamente baixo de descendentes falantes, se comparado aos municípios de Jacutinga e de Severiano de Almeida, a transmissão intergeracional desponta como um carro-chefe na manutenção da língua. Isso também foi observado no município de Colombo/PR, relatório final, p. 30. A partir desses dados, é preciso relativizar os dados anteriores sobre índices de bilinguismo. Se somarmos “todos os dias” e “muitas vezes” como chances de transmissão e manutenção da língua, teremos um número de 70, 12+8+21+29, que, se comparado ao “raramente”, 75, 12+18+21+24, considerado como perda virtual da capacidade de transmissão intergeracional futura, mostra que as chances de manutenção são menores, mas diferenciadas entre os pontos, p. 31. Severiano de Almeida apresenta a maior probabilidade de transmissão e manutenção do talian, o que confirma a força dos fatores já apontados acima, ou seja, o isolamento geográfico e a homogeneidade étnica. No entanto, se tomarmos “todos os dias” como chance mais clara de manutenção, a perda é maior em todos os pontos, inclusive em Severiano de Almeida, bastando verificar esse número, em negrito, na tabela 10 acima. Esses dados ilustram como os fatores apresentados no capítulo 2 são dependentes do contexto e, por isso, necessitam ser relativizados. Há, ainda, outra interpretação na análise do que significam os índices de respostas “raramente”. Há uma diferença entre “falar uma língua” e ter “noções de uma língua”. O discurso politicamente correto de que, “como descendente de italianos é preciso ter, pelo menos, uma noção da língua de origem”, não significa que de fato houve a transmissão intergeracional desta língua. Está decretada, infelizmente, com estes dados, a morte pelo menos parcial da língua em curto ou médio prazo. Esse dado alarmante levanta a questão de quais seriam as chances de revitalização do talian, p. 32.
9 - Escrita e Leitura
9.11 Comente sobre as principais diferenças entre a prática de escrita e leitura na língua portuguesa e na língua de referência da comunidade
Sobre a escrita na língua de referência, a pesquisa explica que não há uma grafia unificada e que tanto nos textos escritos quanto na oralidade, percebeu-se a presença do talian, do italiano-padrão e do português.
Tanto na oralidade, como nos escritos, constatou-se a presença concomitante de três línguas, ou seja, o talian, o italiano-padrão e o português, traduzindo as dinâmicas sociais e culturais que subjazem aos grandes fenômenos de mudança linguística. (p. 10)
Realmente, há diferentes escritos do talian que predominam certos dialetos e falares em função da origem dos falantes (cremonese, padovano, bellunese, feltrinese, entre outros). Isto gera, por sua vez, uma multiplicidade de formas que perturbam o pesquisador. (p. 95)
Wilson Paim, cantor reconhecido do folclore gauchesco, evidencia através da música Retorno, abaixo, um pouco do entrecruzamento linguístico e cultural presente no imaginário social da Serra Sul-riograndense.
Subi a serra castigado pela sede
De reencontrar minhas raízes de além mar
Para adoçar o gosto amargo da distância
Matar a ânsia sufocante de voltar
Mirando o rio que me fascina desde a infância
Acariciado pela brisa da manhã
Passei a ponte ouvindo o ruído das cascatas
E farejando o cheiro suave de maçã
De pêlo a pêlo sem dar tréguas à fadiga
Embriagado pelas gotas do orvalho
Estou chegando, bela princesa dos vales
Xucro oratório dos que vivem do trabalho
Eu que sou mescla de campeiro e semeador
Cruza de sangues italiano e pêlo-duro
Sai do pago a campear novos horizontes
Que me provaram estar aqui o meu futuro
Maria, que vontade de chegar
De te abraçar, chorando de felicidade
O teu menino está de volta pra ficar
Trazendo a mala carregada de saudade
Nonna Maria che volonta di rivare
Di ti abraciare piangendo di felicitá
Il tuo bambino stá di ritorno per stare
Portando la mala caricata di rimpianto
Esta última estrofe traz palavras do vocabulário português, do italiano-padrão, do talian e ainda do talian com sintaxe do português. Tal formação poética não deixa de representar a complexidade do processo pelo qual passa uma língua ao ter que adaptar-se a um novo espaço e a novos falantes. Não estamos aqui falando de ortografia e sim de formação histórica e cultural de uma língua. (relatório final, p.92)
4.2
14 - Situação Comunicativa
14.1 Situações comunicativas
A pesquisa encontrou realidades distintas de usos da língua de referência nas diferentes cidades, tipos de localidade (urbana x rural), situações comunicativas, etc.
O relatório final descreve os usos nas rádios e nos eventos envolvendo a cultura taliana. Nos eventos, constatou-se a presença de três línguas: o talian, o italiano-padrão e o português. Em algumas rádios, grande parte das propagandas, músicas e programas são apresentados em talian. Em outras, o português é a língua predominante e o talian aparece apenas em músicas ou anedotas.
Essas rádios, bem como os eventos envolvendo a cultura taliana atuam como difusores da língua.
No final do programa, participamos da missa comunitária e, após esta, é comum componentes do grupo de falantes do dialeto italiano reunir-se no pátio da igreja para cantar, conversar e saborear comidas típicas. Muitas pessoas dirigiam-se a nós, comentando sobre a importância do que ouviram no programa da rádio. (p.33)
No transcorrer do encontro, os radialistas e difusores do talian dirigiam-se a nós, mostrando primeiramente curiosidade em relação à pesquisa e, após, preocupação quanto ao “futuro da língua”, suas reais condições de uso nas diferentes instâncias jurídicas, educacionais e culturais, voltando-se mais especificamente aos meios de comunicação. (p.86)
Sobre o uso da língua nas situações cotidianas, a pesquisa obteve diferentes respostas:
Em depoimento, a jovem Juliana Sonda, 16 anos, residente no interior de Flores da Cunha, no Jornal O Florense, em 25/09/09, afirma: “Como a gente vive nesse meio, onde todo mundo fala, a gente acaba acostumando. Mas na cidade é bem diferente.” Samuel Tonello, de 14 anos, na mesma reportagem, diz que o dialeto está presente em todas as comunidades, principalmente no interior, nos seus núcleos familiares. Ele participa de eventos que procuram manter vivas as tradições e os costumes dos antepassados, como os jogos de cartas (bisca, trio ou briscolão). Entre uma jogada e outra é comum ouvir-se palavras como “tchapa, tchapa (pega, pega) e giocare liso, liso (jogar, lixo, lixo). (relatório final p. 20)
Porém, oito delas disseram frequentar cursos de italiano-padrão. Percebe-se que com isso elas pensam estar “resgatando” a cultura de suas origens. Outra pergunta que fazia referência à língua de origem era se entre eles, jovens, havia conversas em talian. A resposta foi negativa, mas também afirmavam que gostariam de saber falar a língua de origem. (p.88)
Explicou o questionário que os alunos deveriam preencher e perguntou aleatoriamente quem falava o talian, a maioria achou graça e os poucos que responderam, balbuciaram: “só com a nona e o nono”. (p. 27)
As pessoas pareciam familiarizadas com a língua e seu apresentador, demonstrando uma perfeita harmonia entre ambiente, programa e ouvintes. O talian não é apenas “língua de domingo”, faz parte também de ambientes de trabalho. (p.60)
14.3 Dinâmica dos usos da língua de referência
[2] Uso em retração
14.4 Justificativa e detalhamentos sobre a dinâmica de usos
Na maior parte dos municípios pesquisados, o uso da língua encontra-se em retração e/ou restrito.
17 - Atitudes linguísticas da comunidade
17.1 Grau de atitudes dos falantes com relação à língua de referência
Observações
Demonstravam alegria e confiança de que “agora alguma coisa será feita pela língua de origem” (o dialeto italiano). Um senhor de 62 anos disse: “De hoje em diante vou falar com os meus netos só em dialeto italiano. Quero que eles aprendam a falar a nossa língua de origem, assim como eu aprendi”. (relatório final p.33)
Uma senhora confessou durante a sua entrevista, com um dos pesquisadores, que o programa em talian dos domingos é para ela como um bálsamo para seus traumas relacionados à época de proibições do dialeto herdado dos primeiros imigrantes italianos do Rio Grande do Sul. Muitos ouvintes relembram como era o tempo em que estavam juntos aos seus pais na colônia. A maioria que liga e responde a pesquisa é gente da cidade ou de distritos urbanos, por isso, sentem muita a falta de tudo o que lhes rodeava na juventude, inclusive a língua. Para muitos, o programa em talian é um dos poucos elementos que ainda ativa suas lembranças identitárias. (p.60)
Depois de explicada a pesquisa e o conceito que tínhamos sobre o talian, muitas pessoas ligaram para fazer seus comentários. Uma delas afirmou que, se por um lado, é muito bom o trabalho que estamos fazendo, por outro, segundo ela, parece um pouco tarde “querer valorizar uma cultura que já foi tanto desprezada”. Outra disse que sempre incentivou os seus a preservar a cultura taliana, pagando, como curso de língua estrangeira, o italiano. Ainda há aqueles que simplesmente se sentem felizes por ter sua herança cultural sendo inventariada, se sentindo valorizados através daquilo que lhes custa mais caro: a sua identidade. (p. 85)
Há algum tempo, o talian era também visto nesta cidade como um falar de “gente rude”, contudo, ao passar do tempo, esta imagem vem sendo substituída, e hoje se presencia certo orgulho em fazer parte de uma comunidade tão privilegiada, que ainda preserva a língua de origem, o “falar dos nonos”, uma referência que o povo faz ao talian. (p.27)
17.2 Atitude em relação às demais línguas
Era possível ver, através dessa imagem, a forte ligação (confusão?) entre o conceito da cultura taliana com a italiana. As cores da bandeira, o orgulho de um povo, o status de uma língua européia passado pela escrita de uma língua “falsa”, pela “não língua, apenas dialeto”, pela língua destituída de beleza, de poder, mas, com certeza, a mais original e familiar. (relatório final, p. 84)
Passou-se a falar mais sobre essas diferenças e os ouvintes começaram a questionar: “Então o talian não é o italiano?”; “Mas foi meu avô que trouxe esta língua da Itália”; “Ah, sim, nós falamos o dialeto, não o gramatical.” “Não falamos o italiano, até falamos o italiano, mas o falso.” Mesmo conversando com eles sobre isso, é possível concluir que as diferenças que percebem dizem respeito ao status da língua: O talian é uma língua menos importante, menor. O que diferem não está relacionado à formação da língua, seu contexto ou história. A partir desse programa, começou-se a observar que uma maioria esmagadora anuncia festas, eventos, comemorações que traduzem a cultura do talian e utilizam a língua italiana na visualização desses acontecimentos festivos, como em cartazes, painéis, folders, baners, entre outros. Trabalham com o contexto, o conteúdo, a história de uma língua, utilizando o registro da “língua de poder”, o italiano-padrão. (p.57)
Perguntadas sobre qual língua deveria ser ensinada nas escolas (se italiano-padrão ou se talian), responderam que as duas eram importantes, mas que na ordem de prioridade estava o inglês, tendo em vista o mercado de trabalho; em segundo, o italiano-padrão e por último o talian. Foi visível a falta de compreensão sobre o papel que cada uma dessas línguas pode ocupar no ensino e na vida particular de cada uma. (p.88 e 89)
Anexar / Fazer upload entrevistas/reuniões com falantes de referência
7. Síntese
18 - Síntese
18.3 Panorama das línguas em contato
A estratégia foi a de registrar, de modo mais abrangente possível, todas as manifestações de uso do talian, desde uma simples conversa em talian entre duas cozinheiras, o programa de rádio, a música e a cantoria, até o sermão do padre, tudo dito, pretensamente, em talian. Explicamos melhor: tanto na oralidade, como nos escritos, constatou-se a presença concomitante de três línguas, ou seja, o talian, o italiano-padrão e o português, traduzindo as dinâmicas sociais e culturais que subjazem aos grandes fenômenos de mudança linguística. (relatório final, p. 10).
5.3 Quais são as línguas mais comuns faladas por indivíduos que dominam mais de duas?
Português e italiano-padrão
6.1 Qual língua é mais comumente aprendida como primeira língua?
Língua 1 Português (O talian é aprendido como primeira língua apenas em municípios isolados)

