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Kawahiba dos Kapiruna

Início Módulo 4 - Identificação e Caracterização da Língua Referência Kawahiba dos Kapiruna

1 - Denominações da Língua

1.1 Identificação e Caracterização da Língua Referência - Nome da língua

Kawahiba dos Kapiruna

1.2 Projeto

Língua Kawahiba dos Karipuna

1.3 Língua do Inventário

Kawahiba dos Karipuna

1.5 Autodenominações

Kapiruna, Kawahiba

1.6 Observações sobre autodenominações

Nome de um antigo falante do povo Karipuna. Os indígenas afirmam que a FUNAI, durante o contato, interpelou um senhor sobre o nome do seu povo. Esse indígena se chamava Jaripuna, e como o servidor da FUNAI não entendera que a palavra a que o indígena se referia era seu próprio nome, bem como ouviu ainda o primeiro som do seu nome diferentemente, foi anotado que o povo Kawahiba em questão se chamava Karipuna.

1.7 Heterônimos

Kawahiba

1.8 Observações sobre heterônimos

gente, índio, pessoa

1.9 Denominação de ampla circulação

Karipuna, Kawahiba

1.11 Denominação adotada neste formulário

Kawahiba dos Karipuna

1.12 Justificativa da denominação adotada

Os índios desejam que o nome da etnia faça parte, também, do nome da língua. É o povo que mais se reconhece como Kawahiba dentre todos os povos conhecidos na literatura com este etnônimo.

1.13 Observações gerais sobre denominações

gente, índio, pessoa

2 - Modalidade da língua

2.1 Modalidade da língua

Oral-auditiva

3 - Historicidade da língua

3.1 A língua é falada no território nacional há pelo menos três gerações?

Sim

3.2 Indique os marcos temporais que caracterizam a história da comunidade linguística

Os anciãos Karipuna, como Aripã e Katika Karipuna, bem como o cacique e professor da escola da aldeia, Batiti, lembram-se de que seus antepassados contavam que todos os Kawahiba estavam juntos. Esses Kawahiba eram os Tenharim, os Parintintin, os Amondawa, os Diahoi, os Juma, os Piripkura e os Uru-Eu-Wau-Wau na região atualmente estado de Mato Grosso. Nessas andanças, seus antepassados contavam que se lembravam até de que guerrearam com os Xavante, povo Jê, que mora no Parque Indígena no Xingu. Saíram vitoriosos, principalmente porque eram muitos Kawahiba. Como bons Tupi, migravam constantemente. Durante essas migrações, alguns povos Kawahiba foram ficando em regiões que lhes apraziam. Esse foi o caso dos Piripkura, de quem hoje se sabe que há três falantes, Rita, casada com Aripã Karipuna e, por isso, vive boa parte do seu tempo na aldeia dos Karipuna, e seus irmãos, que preferiram o isolamento voluntário na T.I Piripkura, no estado do Mato Grosso.
Batiti Piripkura, exímio narrador das andanças de seu povo e responsável por preservar grande parte das narrativas transmitidas por seus antepassados, conta que os demais Kawahiba seguiram suas migrações sempre tendo como direção o “lugar onde o sol se põe”. Segundo ele, “queríamos conhecer as terras onde o sol se põe, porque viemos de onde ele nasce, de um lugar perto do mar”. Após a dissidência dos Piripkura, os Kawahiba atravessaram o rio Machado, passando a ocupar terras que já pertenciam ao atual estado do Amazonas. Nessa região permaneceram os Parintintin, Tenharim e Diahoi, que se estabeleceram definitivamente após considerarem o território favorável à permanência.

Os grupos restantes — Uru-Eu-Wau-Wau, Amondawa, Karipuna, Capivari e Juma — continuaram sua deslocação e retornaram posteriormente ao território de Rondônia, subindo o rio Madeira. A partir desse agrupamento maior, os Uru-Eu-Wau-Wau e os Amondawa seguiram por outro caminho, mantendo entre si a referência de locais de reencontro quando necessário. Os Karipuna, Juma e Capivari deslocaram-se pelo rio conhecido como Contra pelos Karipuna e permaneceram ao longo de suas margens, até que os Capivari também se separaram, dirigindo-se às cabeceiras do rio Jacy-Paraná.

Tempos depois, os Juma e os Karipuna encontraram-se com povos Wari, dando início a uma série de conflitos armados que resultaram em numerosas mortes entre os Kawahiba. Diante dessas perdas, os diferentes grupos Kawahiba de Rondônia decidiram reunir-se para enfrentar coletivamente os Wari, que, segundo as narrativas, já demonstravam hostilidade e provocação em relação às mortes ocorridas. Nesse contexto, Uru-Eu-Wau-Wau e Amondawa juntaram-se aos demais grupos para travar o que é lembrado como a maior guerra contra esse povo.

As narrativas relatam que, nesse momento, até mesmo crianças Kawahiba foram armadas com bordunas feitas de pupunheira. Após localizar a grande aldeia dos Wari, descrita como composta por uma única maloca com mais de seiscentos habitantes, os Kawahiba aguardaram o momento oportuno para o ataque. Durante três dias cercaram a aldeia, até que um pajé Kawahiba indicou que aquele era o momento adequado para agir. Alguns homens entraram na maloca e cortaram as cordas dos arcos dos Wari. Após verificar que todas as armas haviam sido neutralizadas, iniciou-se o ataque. Alguns Wari conseguiram fugir pela parte posterior da maloca em direção à mata, enquanto outros foram mortos durante o confronto. Em seguida, os Kawahiba atearam fogo à maloca, resultando na destruição da aldeia. Esse episódio permanece na memória coletiva como um marco importante das relações interétnicas e dos conflitos territoriais na região.

Os registros históricos indicam que os povos Kawahiba de Rondônia — incluindo os Karipuna de Rondônia, os Amondawa, os Uru-Eu-Wau-Wau e o único representante remanescente do povo Capivari — descendem de um dos três grupos que se separaram de um ancestral comum que habitava a foz do rio Tapajós, quando foram pressionados e deslocados pelos Munduruku, seus inimigos à época. Após essa dispersão, um grupo formado pelos atuais Parintintin e Tenharim refugiou-se próximo ao rio Marmelos; outro grupo, os Apiaká, cuja língua atualmente se encontra extinta, estabeleceu-se próximo ao Alto Tapajós; e um terceiro grupo, composto pelos ancestrais dos Amondawa, Uru-Eu-Wau-Wau, Karipuna e Capivari, deslocou-se para a região de Rondônia por meio dos afluentes do rio Madeira, especialmente pelos rios Jaci-Paraná e Jamari.

Outros povos Kawahiba, atualmente considerados extintos, habitavam áreas próximas ao rio Machado, como os Paranawat e os Wiraféd. Em um tributário desse mesmo rio, mais próximo ao rio Muqui, viviam os Takwatip, enquanto os Ipotewát ocupavam regiões ao longo do rio Machado, todos falantes de dialetos dessa mesma língua. Registros etnográficos do século XX também mencionam grupos em processo de desaparecimento que habitavam a região do rio Machado ou Ji-Paraná, como os Tucumanfét e os Jabotiféd, além dos já extintos Mialat, registrados na região do rio Leitão em 1938. O povo conhecido como Piripkura, cujo nome deriva de uma palavra da língua Gavião que significa “borboleta”, encontra-se atualmente em fase de contato e também fala um dialeto Kawahiba. Do povo Capivari resta apenas um indivíduo, que atualmente reside com os Karitiana e possui idade avançada.

Além disso, ainda há um grupo Kawahiba não contatado na Terra Indígena Uru-Eu-Wau-Wau, denominado pelos Uru-Eu-Wau-Wau e pelos Amondawa como Urupain. Esses povos também relatam a presença de outro grupo isolado na mesma terra que não pertence ao conjunto Kawahiba, identificado principalmente pelas características de suas flechas, consideradas maiores do que as utilizadas pelos Kawahiba. Esse grupo é denominado Wyrapararakwara, termo que pode ser traduzido como “aqueles de flechas grandes”.

4 - Classificação Linguística

4.1 Tipo de língua

Línguas Indígenas

4.3 Classificação linguística

Família Linguística | Tronco

4.5 Tronco linguístico

Tupi

4.6 Família linguística

Tupi-Guarani

4.6 Listar as línguas geneticamente mais próximas

Diahoi, Juma, Tenharim, Parintintim, Uru-Eu-Wau-Wau, Amondawa, Karipuna, Capivari, Piripkura, Apiaká e Kayabi.

4.7 Observações gerais

Com base nas próprias impressões dos indígenas, bem como nas referências disponíveis (SAMPAIO, 1997, 2012) sobre esses grupos, trata-se de um complexo dialetal, e não línguas diferentes.

5 - Identificação de línguas e variedades

5.9 Diferenças estruturais entre línguas consideradas uma mesma Língua

Somente uma pesquisa com esse fim pode apontar as diferenças estruturais entre as variedades da língua de referência. Dessa forma, considera-se inviável que, em um inventário como este, essa questão seja respondida de maneira apropriada quanto aos níveis linguísticos específicos de cada variedade.

Por outro lado, identificam-se na literatura propostas de classificação e de parentesco da língua dos povos Kawahiba no âmbito da família Tupi-Guarani, pertencente ao tronco Tupi. A dissertação de Sampaio (1997), intitulada Estudo Comparativo Sincrônico entre os Parintintim (Tenharim) e o Uru-Eu-Wau-Wau (Amondawa): contribuições para uma revisão na classificação das línguas Tupi-Kawahiba, propõe que Parintintim, Tenharim, Uru-Eu-Wau-Wau e Amondawa constituem dialetos de uma mesma língua, apresentando percentual de inteligibilidade mútua superior a 80%.

Em trabalho posterior, a autora (2012), com base em análises de fonoestatística — que consideram critérios fonológicos para a classificação interna — e no método léxico-estatístico, também agrupou os povos Amondawa e Uru-Eu-Wau-Wau como os mais próximos entre si dentro do complexo formado pelas demais etnias Kawahiba já mencionadas.

Por fim, destaca-se que Aguilar (2017) propôs que os Kayabi, povo que habita o norte do estado do Pará, também integrem o complexo dialetal Kawahiba. Contudo, essa autora não apresenta dados linguísticos que comprovem essa afiliação genética aos demais grupos Kawahiba, baseando-se apenas em fontes secundárias não linguísticas. Assim, essa proposta deve ser considerada com cautela no momento, tanto pela ausência de evidências linguísticas consistentes quanto pelo fato de que os próprios grupos Kawahiba — incluindo Karipuna, Amondawa e Uru-Eu-Wau-Wau — não confirmam essa informação. Lideranças e anciãos desses povos, como os Karipuna Aripã, Katika e Batiti, os Amondawa Tari e os Uru-Eu-Wau-Wau das aldeias Boakara e Manda, relatam não ter conhecimento, por parte de seus antepassados, da existência de um povo denominado Kayabi que tenha participado das migrações realizadas historicamente do leste para o oeste.

Diante disso, permanece necessária a realização de análises linguísticas específicas que possam demonstrar, de forma fundamentada, a eventual filiação da língua falada pelos Kayabi ao complexo Kawahiba.

5.10 Divergências na literatura sobre línguas consideradas línguas diferentes

Não

6 - Situação político-jurídica

6.1 Oficialização

Não

6.2 Patrimonialização

Não

7 - Recursos Documentais

7.2 Principais referências documentais

Etnodicéia Uruéu-UauUau

Tipo de Material

Monografia no Todo (livros, manual, guia, dicionário, etc)

|

Kagwahiva dictionary

Tipo de Material

Monografia no Todo (livros, manual, guia, dicionário, etc)

|

Parintintin grammar

Tipo de Material

Monografia no Todo (livros, manual, guia, dicionário, etc)

|

Estudo comparativo sincrônico entre o Parintintim (Tenharim) e o Uru-Eu-UauUau (Amondava): contribuições para uma revisão na classificação das línguas Tupi-Kawahiba

Tipo de Material

Trabalhos acadêmicos (teses, dissertações, monografias, etc)

8 - Pessoas de referência

8.1 Pessoas de Referência

Wesley Nascimento dos Santos | Osmar Marçoli | Adriano Karipuna | André Karipuna | Batiti Karipuna | Aripã Karipuna | Katika Karipuna

9 - Instituições

Existem escolas na comunidade de referência?

Sim

9.1 Escolas

9.1.1. Há professores que falam a língua de referência?

não

9.1.2 Há Materiais didática na e sobre a língua de referência ?

não

9.1.3 Observações (professores e materiais didáticos)

Há um único professor na Escola Estadual do Ensino Fundamental Pin-Karipuna e que é indígena. Apesar de o professor ser indígena, suas aulas não contemplam a língua ou a cultura dos Karipuna, pois não há uma disciplina dedicada a essas questões. Não há material didático na língua.

9.1.4 Descreva a escola

Escola Estadual de Ensino Fundamental Pin-Karipuna

Local

Aldeia Panorama – Terra Indígena Karipuna

Níveis contemplados

Ensino Fundamental

Possui educação intercultural, bilíngue ou diferenciada?

Não

Língua de Alfabetização

Português

Língua de Instrução

O Português é a única língua usada na instrução escolar

A partir de qual ano escolar?

A partir do 1° ano do primeiro ciclo do ensino fundamental

Até que ano escolar?

Até o 5° ano, ou seja, durante primeiro ciclo do ensino fundamental

Com que regularidade/ frequência no ano escolar

Há aulas em todos os dias da semana. No entanto, estas não são sobre a cultura, nem a língua dos Karipuna, pois não há uma disciplina que contemple essas questões.

Breve descrição do que trata a disciplina

Não há alguma disciplina que trate da cultura Karipuna.

9.1.5 Indique a situação atual da promoção da língua no contexto escolar

Desfavorável à promoção do uso da língua de referência na escola

9.1.6 Justificativa e caracterização das situações desfavoráveis para a promoção da língua no contexto escolar

A língua de instrução é somente o Português. Não há disciplina dedicada à cultura, nem à língua dos Karipuna.

11 - Outras instituições

11.1 Outras Instituições

CIMI (Conselho Missionário Indigenista)

Tipo de instituição

ONGs nacionais

Procedência

de fora da comunidade

Atividades realizadas

Proteção contra invasores de terra e assistência social

|

Associação do Povo Indígena Karipuna Abytucu Apoika

Tipo de instituição

Associações Representantes

Procedência

de dentro da comunidade

Atividades realizadas

Representa o povo Karipuna; responsável pelas demandas sociais e políticas da comunidade frente à sociedade nacional

12 - Organizações que ameaçam a língua e a cultura da comunidade linguística

12.1 Nome da instituição

Madeireiros da região de Bandeirantes e Buriti/RO

12.2 Ações prejudiciais

Extração ilegal de madeira da T.I Karipuna

12.3 Consequências

Derrubada de mata virgem da T.I dos Karipuna e ameaça constante aos indígenas, a sua tranquilidade e sobrevivência.

13 - Registros Relacionados

13.1 Pesquisa Relacionada (Módulo 1)

Kawahiba dos Karipuna

13.2 Territórios Relacionados (Módulo 2)

Kawahiba dos Karipuna

13.3 Comunidades Linguísticas Relacionadas (Módulo 3)

Kawahiba dos Karipuna

13.4 Diagnósticos Sociolinguísticos Relacionados (Módulo 5)

Kawahiba dos Karipuna

13.5 Avaliações de Vitalidade e Revitalização Relacionadas (Módulo 6)

Kawahiba dos Karipuna

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